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"Ameaça de intervenção no continente é gravíssima"

05/10/2017 15:03

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores. Foto: Gustavo Bezerra/PT na Câmara

Por Benildes Rodrigues
Do PT na Câmara 

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim classificou de “gravíssima” a crise política da Venezuela, agravada pela postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu intervenção militar como meio para resolver o problema do país vizinho.

Para o ex-chanceler do governo do ex-presidenteLula, essa proposta de intervenção deve ser o definidor da posição brasileira. “Não me recordo de nenhum caso na América do Sul em que um presidente norte-americano tenha ameaçado um país sul-americano com uso de força”, criticou o ex-chanceler.

“Isso é gravíssimo, porque não só traz de volta a doutrina Monroe (A América para os americanos), o que já é extremamente grave, mas viola a Carta da Nações Unidas em seu artigo 2º, parágrafo 4, que veda o uso da força e a ameaça do uso da força”, observou Celso Amorim, durante audiência pública realizada pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (Credn), que pautou o debate por sugestão do deputado Nelson Pelegrino (PT-BA).

Para o ex-ministro, não serve a justificativa de que nem tudo que Trump diz deve ser levado a sério. “Muitos podem dizer que Trump fala muito, mas é o presidente dos EUA”, ponderou Amorim, que voltou a repetir que o episódio é fato grave que, por si só, já justificaria uma reunião extraordinária tanto do Mercosul (Mercado Comum do Sul) quanto da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), mecanismos regionais dos quais os EUA não participam. “Esse fato é grave e a ele não se está dando a suficiente atenção”, observou.

Ainda, segundo o ex-ministro, a situação requer diálogo e é dessa forma, historicamente, que o Brasil tem atuado na resolução dos conflitos que envolvem os países vizinhos e parceiros. “Podemos ajudar a encaminhar um diálogo a permitir que a Venezuela vá encontrando soluções. Não podemos e devemos impedir que haja intervenção ou ameaças externas que apenas acirram os ânimos”, recomendou.

Na visão de Amorim, o comportamento do presidente norte-americano “não serve para nada”, a não ser para privilegiar setores da sociedade, da classe dominante, contrários ao governo venezuelano. “Essa atitude não serve para estabelecer a paz na Venezuela que é o nosso objetivo.

Ao intervir no debate, o deputado Nelson Pelegrino avocou os elementos norteadores da política externa brasileira. Segundo ele, estes estão pautados – constitucionalmente – em encontrar soluções pacíficas para os conflitos e a não intervenção externa como meios de resoluções de problemas, sejam eles quais forem.

“Preocupa-nos que o governo atual não faz uma política externa com base nesses princípios”, acusou Pelegrino, preocupado com o alinhamento do governo brasileiro à prática de isolamento que o governo americano quer impor ao governo venezuelano de Nicolás Maduro.

“Não podemos acelerar o processo de divisão em curso naquele país. O Brasil precisa adotar uma posição de equilíbrio e amenizar a crise. Se não houver uma postura serena por parte dos parceiros, no meu entendimento, esse problema vai levar a Venezuela a uma guerra civil com trágicas consequências”, ponderou Pelegrino.

Petróleo

Sobre o papel do petróleo como um dos vetores da crise, Celso Amorim disse a queda dos preços da commoditie afeta ainda mais a crise econômica venezuelana. “Com um conflito entre Rússia e Ucrânia, um conflito entre o Irã e Arábia Saudita e a situação da Venezuela, é muita coincidência que os preços do petróleo tenham baixado tanto”, ironizou.

Amazônia

Ao se pronunciar sobre os rumores de manobras de tropas militares dos Estados Unidos na região Amazônica, Celso Amorim estranhou o fato de o governo, por meio dos Ministérios de Relações Exteriores ou da Defesa, não ter feito um desmentido oficial. “É grave. Saem muitas notícias e não sai uma nota oficial desmentindo? ”, criticou.

O ex-chanceler acredita que essas manobras já estão ocorrendo e que elas são justificadas como operações de caráter humanitárias. “Todo mundo sabe que a fronteira entre ação humanitária e a operação militar é difícil de definir, e os instrumentos frequentes são os mesmos”, alertou.

Para ele, nesse caso, “mesmo que não haja fogo atrás da fumaça, é algo que incita uma preocupação e cria dificuldade no nosso relacionamento”. “Na melhor das hipóteses isso gera um complicador diplomático. A pior das hipóteses eu não sei precisar o que seria”, afirmou Celso Morim, se mostrando preocupado.

Do PT na Câmara