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Artigo: A luta contra a fome atrás das grades

28/01/2018 13:28

Mensagem de Lula é vista durante reunião de Alto Nível na União Africana. Foto: União Africana

Por Enrique Yeves*

É uma ironia perversa que o arquiteto do maior sucesso internacional na luta contra a fome e a pobreza, ex-presidente Lula da Silva, tenha sido convidado pelos presidentes da União Africana para participar neste fim de semana na Etiópia de um evento para mostrar os segredos do "milagre brasileiro", que inspira os líderes do continente africano através de seu programa Fome Zero, uma referência mundial no progresso social, enquanto ao mesmo tempo, em seu próprio país, estão fazendo todo o possível para colocá-lo na prisão. E eles estão bem perto de seu objetivo. Para começar, no último minuto, um juiz retirou seu passaporte na sexta-feira e impediu-o de embarcar no avião.

Ironia sinistra que o articulador das políticas de distribuição de riqueza em seu país, que conseguiu em pouco mais de uma década resgatar da pobreza extrema mais de 36 milhões de brasileiros, reduzir a mortalidade infantil em 45%, diminuir o número de pessoas subnutridas em 82% e levar o Brasil – o maior país da América Latina e onde o fosso entre ricos e pobres era o maior do mundo – a desaparecer do mapa da fome que a FAO produz anualmente está prestes a ser levado à prisão. A acusação formal é beneficiar-se de um apartamento que não é e nunca foi dele, e o delito real é ser, neste momento, o líder mais valorizado em um país em crise profunda e em plena disputa eleitoral.

Porque, de fato, se há um delito, é precisamente este: todos concordam – opositores e detratores – que, quando as próximas eleições gerais forem realizadas – em de outubro deste ano – existe um vencedor seguro, Lula. Se o deixarem ser candidato.

No complexo mundo da cooperação internacional, cada vez que falamos sobre uma fórmula que funcionou para reduzir a fome e a pobreza, citamos o programa Fome Zero que o presidente Lula e seus colaboradores implementaram em seu país quando foram eleitos em 2003. Cada vez que um país deseja alcançar objetivos semelhantes, seja na Ásia ou na África, eles olham com admiração para o "modelo brasileiro", que então adaptam a suas próprias necessidades. Toda vez que queremos mostrar que é possível erradicar a fome, falamos sobre o Brasil. Toda vez que explicamos como a riqueza pode ser redistribuída para beneficiar as camadas mais vulneráveis ​​de maneira ordenada e metódica, citamos o Brasil.

É por isso que os países africanos, reunidos neste fim de semana na capital etíope em sua cúpula anual, pediram a Lula para lhes dizer novamente como ele fez e como ele pode ajudá-los em seu continente. É um relacionamento colaborativo que ganhou um impulso decisivo na reunião realizada em julho de 2013, também em Adis Abeba, durante a qual foi lançada uma iniciativa da União Africana, da FAO e do Instituto Lula com o objetivo de erradicar a fome em África até 2025. Um ano depois, os resultados dessa reunião foram consolidados através da Declaração de Malabo, apoiada por líderes africanos, que agora querem avaliar como esse caminho tortuoso e difícil para erradicar a fome no continente. Ficaram na vontade.

É de se perguntar por que em seu país se esforçam tanto para bloqueá-lo e o motivo está se tornando cada vez mais evidente. O "modelo brasileiro" é muito perigoso. É muito eficiente. Pode ser replicado. E, o que é ainda pior para alguns, pode ser reintroduzido se ele ganhar as eleições. É por isso que todos os esforços são direcionados para um único objetivo: impedir que ele participe das eleições de outubro.

A década prodigiosa com Lula no leme – e mais tarde por sua sucessora, Dilma – fez com que a pobreza geral caísse no Brasil de 22% para 8% entre 2001 e 2013, enquanto a pobreza extrema caiu de 14% para 3,5%. O acesso a alimentos adequados atingiu 98% dos brasileiros. Nessa década, a renda dos 20% mais pobres da população triplicou em relação à dos 20 mais ricos.

O exemplo do Brasil, um país complexo e enorme de quase 200 milhões de pessoas, naquela que já é considerado internacionalmente como uma das experiências mais bem sucedidas na redução da desnutrição na história recente, logo serviu de inspiração para outros países em primeiro lugar a região e depois em outros continentes.

Na América Latina, os líderes se comprometeram em 2005, com o apoio da FAO, com a erradicação da fome na região através da Iniciativa América Latina e Caribe Sem Fome (IALSCH). A região foi pioneira em assumir esse desafio e respondeu através do seu principal órgão de integração, a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe, a CELAC, que implementa um ambicioso Plano de Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome. Como resultado de tudo isso, a América Latina foi a região que fez o maior progresso na redução da fome e da pobreza em todo o mundo desde o início do século 21. Os dados são fortes e não deixam espaço para dúvidas. No final dos anos noventa, cerca de 66 milhões de pessoas, ou seja, 14,7% de sua população, que sofriam de fome, que não tinham acesso ao alimento necessário para levar uma vida saudável. Em uma década e meia, essa porcentagem diminuiu para 5%, reduzindo o número de pessoas afetadas para 34 milhões (tendo em conta, além disso, que nesse período a população aumentou cerca de 130 milhões).

São todos esses avanços que eles querem aprisionar hoje no Brasil, a qualquer custo. Esta é a realidade não só dos brasileiros, mas também de todos aqueles que estão preocupados em enfrentar um dos maiores desafios coletivos que temos em nosso planeta: erradicar a fome e a pobreza. Talvez eles consigam colocar Lula da Silva atrás das grades. Mas eles não podem fazê-lo com os 815 milhões de pessoas que sofrem de fome no mundo hoje, uma em cada nove. A prisão não serve para resolver esses desafios. O que serve são os Lula de todo o mundo. Os líderes africanos que o convidaram neste fim de semana para a Etiópia sabem disso. Lula sabe disso. E, infelizmente, aqueles que estão determinados a não deixar que nada disso avance também se deram conta dessa realidade. Uma ironia perversa.


Enrique Yeves é jornalista e escritor especializado em desenvolvimento internacional. Atualmmente é Diretor de Comunicação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).