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Há 49 anos, o pódio mais emblemático das Olimpíadas

30/11/2017 15:31

Por Vinícius Sobreira
Do Brasil de Fato 

O dia é 16 de outubro de 1968. O segundo dia das provas de 200 metros rasos nas Olimpíadas da Cidade do México. O norte-americano Tommie Smith, “O Jato”, justificou seu favoritismo e levou o ouro com o tempo de 19,83 segundos. O compatriota John Carlos levou o bronze. Ao cruzarem a linha de chegada, se abraçaram e fizeram os últimos ajustes para o protesto que entraria para a história do esporte.

Retiraram os sapatos e trajavam meias pretas. Subiram no pódio, receberam as medalhas e, ao tocar o hino dos Estados Unidos, eles não ergueram o rosto em respeito à nação, mas baixaram a cabeça e ergueram o punho, usando luvas pretas: a saudação dos Panteras Negras, organização política socialista e revolucionária norte-americana, fundada dois anos antes com o objetivo de organizar a população negra para enfrentar a violência causada pela polícia nos bairros negros. O maior atacante da história de Portugal, Eusébio (ex-Benfica), além dos brasileiros Sócrates (ex-Corinthians) e Reinaldo (ex-Atlético-MG) celebravam seus gols repetindo o gesto.

Os anos 1960 foram duros para a população negra norte-americana, com os assassinatos de Malcolm X (1965) e Martin Luther King Jr (1968). Além disso, os EUA estavam no meio da Guerra do Vietnã (1955-1975), de onde sairia derrotado e com aproximadamente 60 mil soldados mortos – em sua maioria negros. No esporte, o pugilista Muhammad Ali, campeão olímpico e mundial de boxe, perdeu seu cinturão em 1967 por se negar a ir lutar na Guerra.

Estimulados pelo também negro professor de sociologia Harry Edwards, da universidade em que eram bolsistas Tommie Smith e John Carlos, atletas negros de várias modalidades fundaram a associação Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos (OPHR). Alguns membros, como a estrela do basquete Kareem Abdul-Jabbar, boicotaram os jogos olímpicos. Mas Tommie Smith e John Carlos foram, ganharam as medalhas e protestaram no pódio.


Mas o protesto em defesa das vidas negras não foi bem recebido pelas autoridades e imprensa. Os atletas foram duramente criticados até pelo Comitê Olímpico Internacional, que disse que não se pode misturar política e esporte.  A dupla de corredores teve seus vistos de permanência no México imediatamente cancelados e, no dia seguinte, foram expulsos da Vila Olímpica. Seus companheiros corredores do revezamento 4x400 quiseram abandonar os jogos, mas os medalhistas os convenceram a competir. Lee Evans, Larry James, Ron Freeman correram e levaram o ouro. No pódio, usaram boinas, outro símbolo dos Panteras Negras.

A dupla foi condenada ao esquecimento durante muitos anos até começarem a ser reconhecidos como símbolos da luta do povo negro norte-americano.

O homem branco
Junto a Tommie Smith e John Carlos está o australiano Peter Norman, o homem branco em segundo lugar no pódio. Naquela noite o corredor fez os 200 metros em 20,06 segundos, que permanece até hoje, 50 anos depois, como recorde nacional da Austrália para a modalidade. Ele não é negro e não ergueu o punho, mas usou o distintivo da OPHR no pódio como forma de demonstrar apoio ao protesto dos companheiros norte-americanos.

Na Austrália se vivia um momento de grande violência racista contra os aborígenes, população nativa da ilha continental. Norman também acabou relegado ao esquecimento pelas autoridades e se tornou alcoólatra. Mesmo décadas depois, nas Olimpíadas de Sidney 2000, nenhuma homenagem foi feita ao recordista nacional. Tommie Smith e John Carlos estiveram em seu funeral, em 2006.

Futebol americano hoje
Em 2012 o adolescente Trayvon Martin, de 17 anos, caminhava para a casa do pai, na Flórida, quando foi assassinado a tiros por um vigilante, que alegou legítima defesa. Mas Trayvon estava desarmado. Antes, em 2011, a vítima foi Anthony Lamar Smith. Outro caso similar, também emblemático, foi o de Michael Brown, em Ferguson.

Uma onda nacional de protestos da população negra das periferias se seguiu e os casos de violência policial contra jovens negros passaram a ter mais repercussão na sociedade e na mídia.  Os protestos contra a violência policial foram muitas vezes respondidos com mais violência policial e mortes de outros jovens negros. Para completar, boa parte dos assassinos foi inocentado pela justiça norte-americana.

Os fatos citados, somados à desigualdade brutal entre negros e brancos nos Estados Unidos, inspirou o jogador de futebol americano Colin Kaepernick a protestar antes de todos os jogos. Desde o segundo semestre de 2016, o quarterback não cantava o hino com a mão no peito, mas se ajoelhava. O gesto teve muitas críticas, mas também muitas demonstrações de apoio, inclusive de outros jogadores do seu então clube, o San Francisco 49ers.

Mas não importa se o protesto é justo, o tratamento dado a quem protesta permanece o mesmo de outros tempos. No meio deste ano, quando as equipes montavam elenco para a temporada 2017/2018, Colin Kaepernick foi demitido do San Francisco e nenhum outro clube quis contratá-lo, apesar de ser um dos 10 melhores quarterbacks do campeonato.

Mas outros atletas seguiram protestando, o que levou o caricato presidente Donald Trump a se pronunciar, no último mês de setembro, nas redes sociais pedindo justamente que os clubes demitissem qualquer atleta que repetir o protesto. Os jogadores responderam em massa ao conservador: brancos e negros, eleitores de Trump ou não, a maior parte dos atletas - e até cantores que interpretam o hino - realizou protestos antes dos jogos, se ajoelhando e, novamente, erguendo o punho, mostrando que ninguém mais ficará em silêncio diante do racismo.

Edição: Monyse Ravena