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Lula em Angola: “antes de chegarmos ao governo, 35% da população tinha que ter quase tudo e o resto tinha que ser pobre”

07/05/2014 14:26

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou nesta quarta-feira (7) em Angola sobre o combate à fome e à miséria no Brasil e como a experiência brasileira pode servir de estímulo ao desenvolvimento de políticas públicas em Angola e em todo o continente africano. Lula e a ex-ministra do Desenvolvimento Social, Márcia Lopes, participaram nesta tarde juntamente com a ministra angolana do Comércio e Combate à Pobreza, Rosa Pacavira, do seminário “Experiências do Combate à Fome e à Pobreza em Angola e no Brasil”, organizado pelo Instituto Lula e Fundação José Eduardo dos Santos. Também falou na ocasião o diretor do Instituto Lula, Celso Marcondes.

O auditório em Luanda, capital angolana, estava lotado com mais de mil representantes do governo, do congresso, de partidos políticos e de ONGs, além de acadêmicos e jornalistas angolanos, reunidos para ouvir sobre as políticas públicas de Angola e do Brasil para reduzir a pobreza e promover o desenvolvimento econômico.

Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.

Em um discurso de 50 minutos, Lula lembrou a trajetória do Brasil de decidir encarar como prioridade, o problema da pobreza e da fome. “O que aconteceu no Brasil foi resultado do nosso acúmulo histórico”. Logo no início, Lula deixou claro que a experiência brasileira não é para ser repetida em nenhum país, porque cada um tem suas peculiaridades, mas serve como estímulo para o desenvolvimento de soluções próprias. “Eu queria provar que era possível fazer aquilo que eu reivindicava que os outros fizessem”. A diferença foi governar para todos. “no Brasil, antes de nós chegarmos ao governo, se dava como certo que 35% tinham que ter quase tudo e o resto tinha que ser pobre”.

Lembrando a superação de preconceitos na sua história de vida, carreira política e no exercício da Presidência, e enumerando os resultados das políticas públicas brasileiras desses últimos 11 anos, Lula emocionou e foi interrompido em diversas passagens por aplausos, especialmente quando defendeu a urgência do combate à pobreza. “Aqueles que têm fome não podem esperar. É sagrado colocar essas pessoas como tarefa obrigatória. É para eles que se deve governar”.

Lula reiterou que recursos para os mais pobres não podem ser considerados gasto, mas sim como investimento. “Quanto damos dinheiro aos pobres, a gente não está gastando, mas investindo para que ele se transforme em um cidadão na sua plenitude”. O ex-presidente criticou a ideia de que apenas políticas voluntaristas são suficientes para acabar com a fome. “A fome tem de ser enfrentada por políticas de Estado.”

Antes do ex-presidente, a ministra Rosa Pacavira falou dos programas sociais angolanos, coordenados por uma comissão de 12 ministros, com investimentos de cerca de US$ 790 milhões anuais e dos esforços feitos em Angola para levar os serviços básicos a toda a população. Ela falou também sobre como aprendeu, com o Brasil e outros países, sobre experiências que serviram de subsídios para as ações do governo de Angola. “Adaptamos os programas a nossas realidades locais. Estamos aqui para ouvir o que o Brasil traz de experiência. Começamos há quatro anos, o senhor começou há mais tempo, e por isso queria ouvir sua experiência.”

Márcia Lopes, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e atual consultora da FAO, elogiou a iniciativa de Angola de fazer um censo este mês, que dará mais clareza sobre a população do país que precisa de políticas sociais e seus efeitos. Márcia também lembrou que o ex-presidente sempre defendeu a cooperação internacional. “O Brasil não pode se desenvolver sozinho. Precisamos que a América Latina e a África venham juntos conosco”.

Ouça a fala completa de Lula:

Leia a íntegra do discurso:

Uma experiência brasileira que não pode ser colocada em prática em nenhum país do mundo, porque qualquer política, para dar certo, tem que levar em conta a realidade econômica, política e cultural de cada país. E pedir desculpas pra vocês, porque eu vou tomar mais água que o necessário, não porque eu tenha comido bacalhau. É porque, depois que eu tive um câncer na garganta, eu tenho que tomar mais água do que eu tomava antes. E, se essa garrafa acabar, vou pedir pro embaixador gentilmente me oferecer a dele.

Eu queria, primeiro, dizer a cada companheiro e companheira, aqui presentes, se vocês me permitem tratá-los como companheiros e companheiras, pedir desculpas porque eu não to de gravata. Eu achei que as pessoas viriam esporte. Afinal de contas, nós vamos discutir fome, então... Depois me disseram que o povo angolano é um povo que gosta de se vestir de forma muito elegante. Então, eu peço desculpa porque eu to aqui com uma roupa cubana, sabe. E eu, se eu pudesse eu introduzia no Brasil as guaiabeiras como traje oficial, porque eu acho que é muito mais confortável estar assim do que...

Eu queria lembrar aos companheiros e companheiras que, possivelmente, o que aconteceu no Brasil nesses últimos 11 anos seja o resultado de um aprendizado histórico. Todos vocês sabem que eu fui dirigente sindical, fui um ativista do movimento popular, fui um ativista de partido de esquerda, fui ativista da esquerda, da igreja católica brasileira, das famosas comunidades de base da igreja, fiz todas as greves que alguém poderia fazer num país eu fiz. Fiz todas as pautas de reivindicação que alguém poderia fazer no Brasil eu fiz e, quando eu cheguei à Presidência, caberia a mim tentar provar se eu seria capaz de fazer tudo aquilo que eu achava que os outros deveriam fazer . Portanto, eu cheguei ao Governo com uma parte da sociedade com muita dúvida em relação a saber se um operário seria capaz de governar um país. E, ao mesmo tempo que uma parte da sociedade tinha muitas dúvidas, eu tinha muita certeza de provar que eu seria mais capaz do que aquela parte da elite que tinha governado o Brasil até aquele momento.
E comecei o meu discurso de posse, o meu discurso, quando eu ganhei as eleições, foi um discurso muito humilde. Não teve nenhuma fanfarrice da minha parte. Eu dizia apenas o seguinte: “Eu primeiro vou fazer o necessário, depois eu vou fazer o possível e, se der, a gente faz o impossível.”E eu dizia que se, ao terminar o meu mandato, cada brasileiro ou cada brasileira tivesse tomando o café de manhã, tivesse almoçando e tivesse jantando, eu já teria realizado a obra da minha vida. Vocês percebem que eu não pensava, não pensava muito grande. Eu tinha um pensamento daquilo que era o mais próximo de mim. E eu trazia na minha vida a experiência de um retirante nordestino – sou de Pernambuco – que passou fome. E eu sabia que todas as pessoas pode esperar qualquer coisa. Agora, quem tem fome, não pode esperar; quem tem fome, não pode esperar. As Forças Armadas podem esperar o orçamento do ano seguinte. O Ministério do Planejamento pode esperar o orçamento do ano seguinte, qualquer um pode esperar. O pobre não pode esperar. É sagrado a gente colocar ele como tarefa obrigatória. Porque o pobre, ele não tá no partido político, ele não tá no sindicato. Eu, teve um tempo que eu acreditava que a fome... eu dizia: “O pobre tem de passar fome pra aprender.” E quando eu fui criando consciência, eu fui aprendendo que a fome não leva um homem à revolução. A fome leva um homem à submissão. E o faminto não tem força pra brigar. Ele sequer tem força pra fazer passeata pra reivindicar comida. Então, é pra esse que os governantes têm que governar e não praqueles que comem três vezes ao dia.

Pra que essa política pudesse dar certo, era importante ter em conta que todos os governos do mundo, ou quase todos, quase todos, na hora que discutem investimento para uma empresa, é investimento. Na hora que discute investimento pra qualquer coisa, dinheiro pra qualquer setor, é investimento. Quando se trata de discutir as coisas do pobre, é gasto. E eu, então, na primeira reunião ministerial, introduzi no Governo que era proibido utilizar a palavra gasto quando se tratasse de dinheiro para os pobres, de dinheiro para a educação ou dinheiro para a saúde. Quando a gente dá 5 dólares pra um pobre, a gente não tá gastando. A gente tá investindo pra que essa pessoa se transforme em cidadão na sua plenitude.

Depois, nós decidimos que era preciso incluir a camada mais pobre no orçamento da União para que o pobre deixasse de ser um problema e passasse a ser solução. E eu vou explicar como é que isso aconteceu. O Brasil, antes de nós chegarmos ao Governo, o Brasil foi governado por muita gente sabida, muita gente sabida, com muitos diplomas. Eles até sabiam que existia pobre no Brasil. Mas o pobre era tratado como se fosse um número estatístico e nada mais do que isso. As pessoas adoravam filosofar o número de pobres. Mas a verdade é que o meu país era governado pra 35% da população. Era 35% que comia três vezes ao dia e ainda jantava um pouco mais, tomava um chá da meia-noite; era 35% que viajava de avião, era uma pequena parte que andava de carro, era uma pequena parte que tinha trabalho formal, era uma pequena parte que tinha passaporte. Já se dava no Brasil como certo que 35% tinha que ter quase tudo e o restante tinha que ser pobre. E não tinha jeito.

E eu queria provar que era possível fazer com que o pobre fosse menos pobre. E dizia alto e bom som: “Eu quero fazer isso sem fazer com que o rico fique pobre. Eu quero é que o pobre fique rico. Eu quero inverter essa história de que eu tenho que tirar do rico.” Pois bem, mas, pra fazer isso, era preciso quebrar alguns tabus que estavam criados no Brasil. Por exemplo, no Brasil se dizia que não podia aumentar o salário mínimo, que, se aumentasse o salário mínimo, ia ter inflação. E nós, durante 11 anos consecutivos, aumentamos o salário mínimo e a inflação continuou controlada. No Brasil se dizia que a gente não podia exportar e fazer crescer o mercado interno ao mesmo tempo. Nós aumentamos 4 vezes as exportações e fizemos uma revolução no mercado interno brasileiro.

E por que que essas coisas aconteceram, e por que que os outros não fizeram? É porque não basta receber um número, sabe, que tem pobre no país. É preciso colocá-los na agenda diária das nossas discussões. E eu dizia: “Quando é que o pobre vai deixar de ser pobre?” É quando ele deixar de ser um problema social e passar a ser um problema político. Quando é que ele deixa de ser um problema social e passar a ser um problema político? É quando ele deixa de ser um ser passivo e passa a ser um ser ativo. Quando passa ou ele gritar ou alguém gritar por ele. Porque o pobre, ele não quer mais gritar que tá com fome. Ele quer comer. É mais importante que gritar que tá com fome.

Então o que nós fizemos no Brasil foi exatamente isso: mudar uma série de conceitos e compreensões que se tinha da parte mais pobre do Brasil. E fizemos algumas coisas que vocês vão compreender. Faz 11 anos no Brasil que cresce a renda dos mais pobres, 11 anos que cresce a renda média da sociedade, 11 anos que cresce o aumento do salário dos trabalhadores e 11 anos que os pobres ganham uma atenção maior. A renda média cresceu 35% da sociedade e a renda dos pobres cresceu 66% nesse período. E qual foi um milagre? Quando nós... O Programa Fome Zero não foi criado no meu Governo. Ele foi criado por mim no Instituto Cidadania, em 1992. E o Programa Fome Zero foi levado por mim ao presidente Itamar Franco. E nós então dissemos ao presidente Itamar Franco o que eu disse ontem ao presidente José Eduardo... hoje, hoje de manhã, que: “Um programa de combate à fome só dá certo, se o presidente da República tiver todo o dia, cobrando cada ministro ou cada autoridade.”

Eu lembro que, naquela época eu pedia ao presidente Itamar Franco que criasse uma coisa camada Consea, Conselho Nacional de Política de Segurança Alimentar. Uma instituição que envolvesse a sociedade civil e que estivesse subordinada a ele, presidente da República. Eu não sei por que que ele não quis fazer. Ele criou o Consea, colocou na mão do padre, do bispo Dom Moreli e na mão de um companheiro que vocês conhecem, que já morreu, companheiro Betinho, um sociólogo muito importante pro Brasil, que trabalharam muito, mas trabalharam não na ideia de transformar a luta contra a fome numa renda fixa para as pessoas. Eles trabalharam muito mais com a ideia de que era preciso as pessoas fazerem doação, as pessoas dar alimento, as pessoas, dar alguma coisa, o que não dá certo. A gente não acaba com a fome com política voluntarista. A gente acaba com a fome com política de Estado. O Estado tem que assumir a responsabilidade. Toda a Constituição diz: “Todos os brasileiros, todos os angolanos, todos os mexicanos, todos os americanos terão que ser tratados em igualdade de condições perante a lei.” Então, portanto, é só cumprir a Constituição de cada país que a gente vai garantir a todos o direito de comida.

Depois, já tá provado que a fome não é por falta de alimento. A FAO, a FAO costuma dizer pra quem quiser ouvir de que um terço do alimento produzido pelo planeta Terra é jogado fora, é jogado fora. Então, vocês percebem que tem duas coisas a fazer: primeiro, cuidar melhor de não jogar alimento fora, depois cuidar de dar dinheiro na mão do povo pra ele comprar alimento. Porque, se ele tiver dinheiro pra comprar alimento, pode ficar certo que ele vai comer, pode ficar certo que a agricultura vai produzir e pode ficar certo que o problema estará resolvido.
Então, o que que nós fizemos no Brasil? A primeira coisa que nós fizemos... Hoje, depois de três anos e meio fora da Presidência, fica mais fácil falar. Fica mais fácil, falar, porque os números estão aparecendo agora. Os números não aparecem na hora. Os resultados dessas políticas que nós fizemos produziu um milagre, que o Banco Mundial ficou surpreso, o FMI ficou surpreso e que eu fiquei surpreso. Ou seja, nesses 11 anos, por conta dessa política social, nós conseguimos tirar 36 milhões de pessoas da extrema pobreza, nós conseguimos elevar 42 milhões de pessoas à classe média e nós conseguimos gerar 21 milhões de empregos formais no país.

Agora, não foi só o Programa Fome Zero e o Bolsa Família. Um conjunto de políticas públicas, um conjunto de políticas públicas é que permitiu que essas políticas fossem se combinando entre elas e o resultado foi o envolvimento de muita coisa. E a melhor delas é a geração de empregos. A melhor delas é a geração de empregos. Não tem nada melhor pra distribuir renda do que emprego. Aliás, eu digo sempre, que não há nada pra dar mais dignidade a um ser humano do que ele trabalhar e, no final do mês, levar o sustento da sua família a custa do seu suor e a custa do seu trabalho.

E no Brasil nós enfrentamos muito preconceito. Vocês não têm noção da quantidade de acusações que nós recebíamos. As pessoas diziam que criar o Programa Bolsa Família era criar um bando de vagabundos. Que quem recebesse não ia querer trabalhar. Que eu estava acostumando mal a sociedade brasileira. Porque o Programa Bolsa Família, ele tem condicionalidades. Pra pessoa receber o Bolsa Família, a mãe tem que colocar os filhos na escola. Os filhos têm que tomar vacina. E, se a mãe tiver grávida, ela tem que fazer todos os exames dela durante o ano, senão não recebe. E aí as pessoas gritavam que tinha condicionalidade: “O Governo tá impondo condições”. Nós estávamos impondo era responsabilidades pras pessoas cuidarem melhor da sua própria família. As pessoas diziam: “Vai dar dinheiro, as pessoas vão comprar outras coisas. Ah, vai dar dinheiro, as pessoas não vaso comprar comida.”

No Brasil nós damos um cartão de crédito, um cartão pra 14 milhões de famílias. A pessoa que recebe o cartão não fica devendo favor a vereador, não fica devendo favor a prefeito, não fica devendo favor a deputado. Essa pessoa vai na Caixa Econômica Federal e ela retira o seu dinheiro e ela compra o que quiser. Nós não ficamos fiscalizando o que que a pessoa compra. Nós damos um voto de responsabilidade e de confiança na pessoa.

Por isso é que nós, no Brasil, preferimos entregar o cartão de crédito pra mulher, não é para o homem. Veja, eu... não é nenhuma desconfiança de gênero, mas veja... mas nós homens, somos mais vulneráveis a pegar o nosso dinheirinho, antes de chegar em casa, parar num bar e tomar uma cervejinha, ou comprar uma coisinha numa loteria, se o nosso time tá jogando, ver um joguinho... A mulher, não. O sentido de responsabilidade da mãe, no mundo animal e no nosso meio, é muito maior do que o dos homens, muito maior. E é por isso que quase todos os programas sociais no Brasil, o dinheiro vai pra mulher, inclusive o Programa Minha Casa, Minha Vida, a escritura vai pra mulher. Porque, senão, o malandro pega a escritura, no dia seguinte separa da mulher e a coitada fica sem nada. Então, nós garantimos... Bem, a coisa evoluiu tanto no Brasil, que até uma mulher já virou presidenta do Brasil, de tanto que evoluíram as coisas no Brasil.

Pois bem, mas o resultado disso, companheiros e companheiras, é uma combinação da macroeconomia com estabilidade, com responsabilidade fiscal, com a microeconomia muito forte. Eu brinco sempre, que o Brasil era considerado um país de economia capitalista, sem capital. Porque nós tínhamos 380 bilhões de reais disponibilizados para o crédito no Brasil; 380 bilhões de reais, se fosse mexer com o dólar de hoje, nós teríamos quanto? Uns 130 bilhões, 150 bilhões de dólares. Onze anos depois, nós temos 2 trilhões e 700 bilhões de reais disponibilizados pra crédito. Ou seja, quase 1 trilhão de dólares disponibilizados pra crédito, mais que 1 trilhão de dólares. E fizemos coisa muito importante. Não é apenas o crédito para o empresário, não é apenas o crédito para o setor médio. É o crédito para o pobre. É garantir... Veja, porque a um banqueiro, a um banqueiro, o banqueiro não tem interesse de que entre mil pobres no seu banco pra pegar dinheiro. É melhor emprestar pra um só, não é isso? Um só entra lá e pega 1 bilhão, ao invés de entrar mil, pra pegar esse 1 bilhão. Ou seja “vou ter que atender mil pessoas, vou ter que limpar o prédio, que ele suja o chão do prédio”, sabe... “Ele não sabe falar direito”, sabe... então, nós precisamos mudar a cultura.

Uma vez eu cheguei pros banqueiros, numa reunião com as entidades que representa os bancos, eu falei: “Por que que vocês não emprestam dinheiro pra pobre?” Eles falaram: “Porque pobre não tem garantia.”É, do ponto de vista do banco, tem uma lógica, né?

Então, o Brasil é um país engraçado, porque o sistema financeiro brasileiro ele cobra uma taxa, ele cobra... o spread bancário brasileiro, a gente paga uma taxa por aqueles que não pagam. Eles pressupõem que um tanto não vai pagar e cobra da gente que paga. Mas, no final do ano, eles não presta conta pra gente. Eles vão fiando com o nosso que pagamos também. Então, eu disse o seguinte: “O pobre, ele só tem como garantia o nome dele e a cara.” E quando eu falei isso, eu achei que os banqueiros iam chorar, porque é um discurso ideologicamente forte: “Pobre só tem a cara e o nome de garantia.” Não sensibilizei um banqueiro. Aí eu falei: “Pois bem, então nós vamos criar condições. Nós vamos dar o salário do trabalhador como garantia. Então o sindicato faz um acordo com as empresas e chama o banco, e esse banco empresta dinheiro pro trabalhador e todo mês desconta, no máximo, 30% do salário do trabalhador da prestação que ele fez.” Então ele poderia tomar mil dólares emprestado por 12 meses, por 24 meses, por 15 meses, e todo mês ele descontava um pouquinho. Ou para os aposentados.

Bem, o que aconteceu com esse dinheiro, gente? Em cinco anos, nós emprestamos 227 bilhões de reais para o povo trabalhador desse país. Sabe o que que é isso? É 100 bilhões de dólares emprestado para o povo que não tinha dinheiro. A Marcia (Lopes) disse aqui. Nós saímos de 2 bilhões de dólares do pequeno agricultor para quase 20 bilhões. Nós passamos a comprar alimento das pessoas. Nós passamos a criar farmácia popular. Nós passamos a fazer investimento no microempreendedorismo, nós criamos quase 4 milhões de empresas, legalizamos essas empresas.
E de repente o pobre começou a entrar em shopping, começou a comprar iogurte, daqui a pouco o pobre começou a comprar filé, daqui a pouco ele começou a comer um bacalhau na Sexta-feira Santa, daqui a pouco ele começou a andar de avião. Nós saímos de 36 milhões de pessoas que voavam no Brasil, em 2005, para 109 milhões de pessoas o ano passado. Então o pobre, agora, ele quer viajar de avião, não quer mais ir de ônibus, não. Esses dias saiu uma pesquisa, que caiu muito o número de passageiros de ônibus, e aumentou muito o número de avião. Nós licenciávamos 1 milhão e 700 mil carros por ano. Estamos licenciando 3 milhões e 800 mil carros por ano. E muita gente me xinga na rua: “É, esse desgraçado do Lula que fez o pobre comprar carro e agora tá trabalhando.” De vez em quando eu fico pensando: se o rico tá incomodado que o pobre tá andando de carro, que o rico comece a andar de ônibus e deixe a rua livre pro pobre usar um pouco o carro, que faz tempo que ele não anda.

Então, veja, nós fizemos essa combinação, dessa macroeconomia em que nós emprestamos muito dinheiro para os empresários e muito dinheiro para os grandes agricultores e muito dinheiro para os pequenos e microempresários e muito dinheiro pros trabalhadores. Facilitamos a compra de máquina de lavar roupa, porque tem gente que acha que pobre não gosta de máquina de lavar roupa. Tem gente que acha que pobre gosta de tanque. O pessoal não sabe o quanto é confortável o pobre também cuidar das suas unhas. Porque as pessoas aprenderam que pobre só gosta de coisa de segunda categoria. Vocês conheceram um carnavalesco famoso, chamado Joãozinho Trinta, que era o carnavalesco da Beija-flor. Em 1978, xingaram ele, porque a escola de samba Beija-flor, que era a minha escola, ganhou o carnaval e a elite intelectual carioca disse o seguinte: “A escola Beija-flor é muito luxo, tem muito luxo.” O Joãozinho Trinta falou: “Olha, quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta de luxo, pobre gosta de coisa de qualidade.”

Então, nós fizemos... nós fizemos... e essas coisas, ministra, eu evitei ficar citando número aqui, porque não é possível nem vocês decorarem... Sabe aquele economista que fala muitos números na televisão, quando ele termina, a gente não entendeu nenhum? Então, eu acho, ministra, que, através da nossa Embaixada, através do embaixador de vocês, esses números todos podem estar a sua disposição, mas eu acho que o mais importante do que números é Vossa Excelência ir ao Brasil e conversar com as pessoas. Porque vocês também não têm que acreditar em tudo que eu falo, não. De vez em quando é bom ir ao Brasil investigar, porque a presidenta Dilma tá dando continuidade e melhorando as coisas, aperfeiçoando os programas, sabe? E pra nós não tem mais retorno.

Eu vou dizer uma coisa pra vocês, que é muito importante: em 11 anos, nós conseguimos, no Brasil, ministra, disponibilizar para a reforma agrária 49 milhões de hectares de terra, em 11 anos. Significa 53% de tudo que foi feito em 500 anos. Em 11 anos, nós disponibilizamos, para reforma agrária, 53% de tudo que foi feito no nosso país. Em 11 anos, nós fizemos duas vezes e meia a quantidade de escolas técnicas que foi feita em todo o Século 20.
Então a revolução brasileira não foi só no combate à fome, não. Foi um conjunto de políticas públicas que nós colocamos em prática, que elas foram se juntando, se juntando, se juntando e, de repente, virou uma coisa extraordinária, sobretudo, com a participação popular. Quando alguém me pergunta qual é o grande legado que eu deixei no Brasil, eu falo: O grande legado que eu deixei no meu país foi a relação que eu estabeleci do Estado com a sociedade e do Governo com as entidades organizadas da sociedade.

A gente fazia conferência com mais gente do que tem aqui. Era com índio, era com negro, era com deficiente físico, era com mulher pra discutir saúde, era com professor, era com Polícia Militar, sabe... Gente xingava o Governo, gente questionava o Governo, gente cobrava do Governo e eu tava ali ouvindo, porque político tem o maldito defeito de só gostar do povo quando ele tá aplaudindo. Quando ele tá vaiando, a gente acha que ele é inimigo da gente. Sabe, nós somos democratas, mas não temos a habilidade de conviver com a diversidade. De vez em quando um cara xinga a gente na rua, aí ele fica bravo. Vamos saber porque que ele tá xingando a gente. Será que a gente não tá errado? Será que a gente não tá descumprindo coisa que a gente prometeu fazer?

Então eu acho que, uma das coisas fortes do nosso Governo, era a relação nossa com a sociedade. Eu, durante oito anos de mandato, todo dia 23 de dezembro, eu ia em São Paulo, embaixo de um viaduto, fazer reunião com os catadores de papéis e com os moradores, de rua. Ali eles me cobravam, ali a gente assumia compromisso. No ano seguinte a gente voltava lá, diziam o que a gente atendia, eles cobravam novas coisas. E era assim e até hoje a Dilma continua fazendo isso.

Então essas... Esse comportamento e esse jeito de fazer política é que um pouco mudou a história do meu país. Eu hoje de manhã falei com o presidente Zé Eduardo, porque tem um programa no Brasil que é a minha paixão nacional, que é o Programa Luz pra Todos. Eu, em 2005, resolvi criar um programa, que foi coordenado pela presidenta Dilma, chamado Programa Luz pra Todos. Só pra vocês terem ideia, 90% das pessoas atendidas ganham até dois salários mínimos, 90% das pessoas atendidas ganham... Nós atendemos 3 milhões de residências, o que significa quase 13 milhões de pessoas. Esse programa, esse programa, ele é feito de graça. É uma parceria do Governo federal com o Governo estadual. Então eu vou dar um exemplo pra vocês do investimento. Primeiro eu vou dar os números, que é o número que eu mais gosto de citar, que é o número que me apaixona e que eu fico muito orgulhoso de citar esses números. Eu não to vendo, aqui, viu Ricardo? Por isso eu me perdi. Ou seja, mas os números , em tese, é o seguinte: nós, pra atender 15 milhões de pessoas ou 3 milhões de casas... O Emílio Odebrecht participou disso, outras empresas brasileiras participaram disso. Ou seja, nós geramos 462 mil empregos com esse programa, nós utilizamos 7 milhões e 600 mil postes, nós utilizamos 1 milhão e meio de transformadores e nós utilizamos 1 milhão e 450 quilômetros de fio. Só pra você ter noção o que significa 1 milhão e 450 mil quilômetros de fio, significa 35 voltas no planeta Terra. E muita gente dizia: “Mas o Lula faz essa política só pra pobre, porque, como é que vai resolver a vida, os outros problemas das pessoas?”.

Bem, bem, o que aconteceu, o que aconteceu, o que acontece com uma pessoa pobre quando recebe a luz dentro de casa? Eu vou dizer pra vocês: 81% comprou televisão, 78% comprou geladeira, 63% comprou celular, 58% comprou antena parabólica, 49% comprou liquidificador, 39% compraram aparelho de som, só 29 compraram ferro de passar roupa. Ou seja, as mulheres tão ficando espertas. Bem, esses números demonstra a revolução de um programa que eu acho que a Angola vai precisar. Porque, a hora que você leva energia na casa de um pobre, é como se você tirasse ele do Século 18 e trouxesse ele para o Século 21 num piscar de olhos. E o resultado disso é o crescimento econômico da família, porque a família vai ter bomba d’água, a família vai ter uma máquina de moer ração, as crianças vão estudar mais à noite... Eu vou mostrar pra vocês o que resulta isso tudo na escola. As crianças estudam à noite de forma fantástica. Olha, iniciação de atividade produtiva após a implantação do Programa Luz pra Todos: 245 mil mulheres começaram a ter atividade produtiva depois do Programa Luz pra Todos. O aumento de segurança da família, elas consideram que 82% melhorou a segurança da família. Após o Programa Luz pra Todos, quase 310 mil pessoas voltaram a estudar, porque tinham parado de estudar.

Então o programa significa uma revolução e é o meu sonho na África. O meu sonho em vários países africanos é que tem muitos problemas pra ser resolvido em cada país. Eu acho que, depois de toda luta pela independência, depois de toda luta dentro das guerras civis em vários países, eu acho que esse país aqui é o maior exemplo de que vocês aprenderam a viver em paz, aprenderam a construir democracia e vocês sabem que somente isso vai garantir que a Angola tenha um futuro que vocês tão sonhando há muitos anos e por isso que vocês lutaram pela independência.

E se a gente não resolve o problema de energia, a gente não vai resolver o problema de educação, a gente não vai resolver o problema do desenvolvimento, a gente não vai resolver o problema de acesso à nova tecnologia, a gente não vai resolver quase que nem um outro problema, né? Nem o problema de saúde a gente resolve. Eu tenho andado muito no mundo... Eu fui na União Africana fazer um debate, sabe, Angola estava presente, em que a gente discutiu não apenas a questão do combate à fome, mas a gente discutiu como convencer o mundo rico de que, nessa crise econômica que o mundo rico se meteu, a solução seria financiar o crescimento do mundo pobre pra comprar as coisas que ele produz, pra que os pobres tivessem acesso à tecnologia que o mundo precisa. É inacreditável, é inacreditável que o mundo rico tão inteligente, tão prepotente, quando a crise era no Brasil, quando a crise era em Angola, quando a crise era na Bolívia, quando a crise era n o México, eles sabiam tudo. Quando a crise chega na casa deles, eles não sabem de nada, não conseguem resolver. E eu acho que os países do continente africano, raríssimas exceções, estão demonstrando que vocês não irão jogar fora o Século 21. E o Século 21 é uma oportunidade de extraordinária dos países africanos se consolidarem enquanto países fortes, países democráticos, países resolvendo os problemas sociais.

Então eu acho que o continente africano, hoje, é um exemplo ao mundo. Tá com crescimento médio acima do que tá acontecendo no mundo, já começa política de transferência de renda, já temos quase que 350 milhões de pessoas nesse continente com padrão de consumo de classe média, todo mundo quer se desenvolver. E, o que é mais grave, é que muitos países africanos já foram auto suficientes na produção de alimentos. Depois a desgraçada da colonização ensinou a gente a ser dependente.

Ô gente, ó, eu não falo mal de ninguém, vocês não viram eu falar mal de ninguém, mas o que me deixa frustrado é o seguinte: Colombo chegou a Santo Domingo em 1492. Em 1507, Santo Domingo já tinha universidade. O Peru, em 1550, já tinha universidade. Cabral chegou no Brasil oito anos depois do Colombo, e nós só fomos ter a primeira universidade em 1930. É por isso... Eu fui agora fazer um debate com empresários portugueses e falei: “Ih, vocês não gostaram não, não gostaram...” Mas a verdade é essa. Ou seja, como é que pode o maior país da América Latina só ter sua primeira universidade em 1930, quando o Peru teve em 1550, quando Santo Domingo teve...? É por isso, agora que eu compreendo, é por isso que eu sou o único presidente do Brasil que não tem um diploma universitário. Veja o seguinte, mesmo sendo o único presidente não tendo diploma universitário, eu sou o presidente que mais fiz universidade na história do meu país, que mais fiz escola técnica no meu país e que dobramos de 3 milhões para 7 milhões o número de alunos em universidade nesse país. E agora, e agora a Dilma tá fazendo uma revolução no ensino profissional no nosso país e no ensino técnico.

Então, companheiros, eu queria dizer pra vocês que é possível. Ontem eu fui conhecer um projeto de uma empresa de açúcar, eu fui conhecer. Depois eu fui conhecer, sabe, um projeto de agricultura familiar, sabe, e eu vi o tamanho da berinjela, eu vi o coentro, eu vi o quiabo... Ah, o embaixador me deva uma galinha com quiabo sei lá com quê. E eu fiquei imaginando: minha Nossa Senhora, um país que tem o potencial que tem a Angola, um país que tem uma quantidade de pessoas como vocês, comprometidos com as políticas sociais. A gente não pode, em nenhum momento, achar que a África nasceu pra passar fome. Não é possível, não é possível. Porque, se é assim, Deus tá muito ingrato com a gente. Ora, se é a África o berço da humanidade, se foi aqui que nasceu o primeiro ser humano, se foi daqui que ele se espalhou pelo mundo, por que que nós temo que ser pobres? Por que que nós temo que, a vida inteira, sabe, ser tratado como se fosse cidadão de segunda classe?

No Brasil nós fizemos alguma coisa importante, sabe? Primeiro, nós estabelecemos na escola pública brasileira o aprendizado da história da África. As pessoas saberem, sabe, que o africano não nasceu escravo, não. Ele nasceu cidadão livre. Ele virou escravo lá fora. Nós estabelecemos isso pra poder... Porque não basta estar na Constituição que é crime o racismo. Sabe, o racismo tá na cabeça das pessoas. E a gente não vai abolir isso com lei. A gente vai abolir isso com educação. Vocês viram o que fizeram na Espanha com o Daniel Alves, no jogo do Barcelona? Sabe, é um atentado e uma falta de respeito a um ser humano.

Então, no Brasil, nós legalizamos, por exemplo, os quilombolas, os remanescentes de escravos que tinha no Brasil. Não sei quantos alunos de Angola já tem na Unilab, mas nós fizemos uma escola, sabe, brasileira e africana, pra gente formar, que é o jeito da gente pagar a dívida, que não é paga com dinheiro, que a gente deve ao que os africanos representa na nossa vida, sabe, uma universidade. E o sonho é que ela tenha 10 mil alunos brasileiros e africanos. Vai começar com africanos de língua portuguesa, pra gente formar, ajudar a formar os quadros que vocês precisam pra ajudar a governar esse país.

Então, queridos companheiros e companheiras, eu queria dizer pra vocês que... Ah... Hoje, eu gosto de andar pelo mundo dizendo que é possível fazer as coisas, porque, se eu fosse acreditar nas coisas que eu ouvia, eu não teria feito o que fiz. A gente só fez, porque a gente acreditou na sabedoria do povo brasileiro e teve a compreensão de muita gente. Porque, eu lembro que eu fazia reunião com 20 ou 30 economistas e eu perdi muitas eleições e, quem perde muitas eleições, aprende. E eu fazia muita reunião. E, na última, em 2002, eles diziam assim pra mim: “Lula, o Brasil não tem jeito, o Brasil tá quebrado, cê é louco; o Brasil não vai pagar sua dívida; o Brasil tem uma dívida pública que não tem controle.” E eu dizia: “Mas, se o Brasil tá quebrado, por que vocês querem que eu seja candidato? Que diabo que é isso?” Ou seja, na hora que você assume a responsabilidade, você chama a sociedade...

Primeira coisa que eu fiz foi criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Coloquei na mesma sala o grande empresário, o grande banqueiro com o sem-terra, com o índio, com o representante do movimento negro, com sindicalista. Misturei a sociedade brasileira numa sala pra gente discutir soluções para os problemas do Brasil. E a gente discutia todos os problemas. Não tinha tema proibido. E isso permitiu que a gente conseguisse em 11 anos, em 11 anos, o que a gente não conseguiu em décadas e décadas nesse país.

Por isso, ministro, eu quero lhe dizer uma coisa. Eu quero dizer que, se você persistir, se vocês for teimoso, teimoso, brigar com os seus pares, sabe, se precisar trabalhar uma hora a mais, todo mundo trabalhar uma hora a mais, a gente consegue acabar com a fome na África, a gente consegue acabar com a fome em qualquer lugar do mundo. Porque não existe explicação, nem econômica, nem filosófica, nem sociológica, da gente ter seres humanos – segundo a FAO quase que 1 bilhão de seres humanos – indo dormir sem comer. Eu acho que isso é a vergonha, é o maior desrespeito aos direitos humanos do planeta Terra é permitir que uma criança vá dormir com fome, por falta de um copo de leite ou por falta de um prato de feijão com arroz.

Portanto eu acho, companheiros e companheiras... eu to, eu... eu tenho 68 anos de idade, não sei quantos anos que eu tenho pra frente, mas eu digo todo dia pros meus companheiros: não importa quanto tempo eu tenha pra frente; o que eu quero é, cada minuto da minha vida, se eu puder, tentar colocar pras pessoas as experiências bem-sucedidas no Brasil pra que sirvam não de lição, mas pra que sirvam, eu diria, de estímulo pras pessoas acreditarem que era possível. Se um pernambucano como eu, que nasceu no sertão de uma região muito pobre, que foi comer um pedaço de pão aos sete anos de idade, que teve pai e mãe que nasceram e morreram analfabetos, que virou presidente da República e conseguiu fazer o que nós fizemos no Brasil, eu fico me perguntando: qualquer país do mundo e qual;quer Governo do mundo pode fazer. É só querer.

Muito obrigado!