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Na corrida contra a fome, nos afastamos da meta

17/10/2017 12:26

Alimentação escolar é uma das estratégias defendidas pela FAO para combater a fome na América Latina e Caribe. Foto: FAO/Ubirajara Machado

Da ONU Brasil 

Por Julio Berdegué, representante regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para América Latina e Caribe, e Pablo Aguirre, assessor técnico do representante regional

No dia 15 de setembro, conhecemos o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo”, publicação conjunta de cinco organizações das Nações Unidas, incluindo a FAO. O estudo de 144 páginas apresenta numerosos resultados e análises em diversas dimensões e indicadores, mas a mensagem é uma só: após uma longa tendência de queda nos níveis da fome no mundo, hoje, estamos em retrocesso.

Estima-se que 815 milhões de pessoas sofrem com a fome atualmente, o que representa um aumento de 38 milhões quando comparado com o ano anterior. Este é um retrocesso inaceitável, principalmente, quando lembramos que faz apenas dois anos que os países do mundo assumiram uma meta central dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: acabar a fome do planeta até 2030.

Para complementar o relatório anterior, a FAO e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) publicaram recentemente o “Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional da América Latina e do Caribe 2017”. E a mensagem central é a mesma: na nossa região, também estamos perdendo espaço na batalha contra a fome.

Comparando com o último levantamento, 2,4 milhões de pessoas entraram para a condição de subalimentação. No total, 43 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe sofrem o flagelo da fome. Em sete países, mais de 15% da população está nessa condição: Antígua e Barbuda, Bolívia, Granada, Guatemala, Haiti, Nicarágua e Santa Lúcia.

Se projetarmos sem mudanças as taxas mais recentes de redução da fome, somente oito países alcançarão a meta de Fome Zero em 2030: Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Jamaica, México, Trinidad e Tobago e Uruguai. Ou seja, temos que fazer um maior e melhor esforço para chegarmos à meta comprometida.

Brasil, Cuba e Uruguai lideram os progressos feitos contra a subalimentação. Chile, Argentina e México fazem parte do grupo de países avançados. Todos eles têm menos de 4,2% da população sofrendo de subalimentação. Entretanto, vários deles entraram em uma etapa em que o avanço é mais lento, justo quando a meta já está ao alcance das mãos. Desde 1990, o México reduziu a incidência da fome somente em 2,5 pontos percentuais, e a Argentina apenas em 1,7.

Países como a Nicarágua e a Bolívia apresentam uma outra realidade. São nações em que os níveis da fome são altos, superiores a 17%, mas o importante é que estão fazendo bem as coisas e avançando rapidamente na direção correta. Destacamos o caso da Nicarágua, com uma redução impressionante de 35 pontos percentuais desde 1990. Bolívia também se movimenta em boa velocidade na direção adequada, diminuindo a fome em quase 16 pontos percentuais desde 1990.

Podemos identificar um terceiro grupo de países onde o problema piorou no último ano. Costa Rica, com 5,6% da sua população sofrendo com a subalimentação, é um dos países com melhores índices, mas o problema tem aumentado recentemente. Antígua e Barbuda, Granada, Peru, Santa Lúcia e Venezuela, também estão retrocedendo em comparação com 2016 e, no último caso, de maneira significativa. O recente retrocesso do Peru deve ser considerado a partir do fato de que o país tem uma trajetória de sucesso a longo prazo, pois diminuiu a fome em 22 pontos percentuais desde 1990, o que deixa o país com somente 8% de incidência de subalimentação.

A partir das tendências resumidas anteriormente, quais devem ser as estratégias para que, no ano de 2030, possamos declarar que a América Latina e o Caribe são uma região livre da fome, como se comprometeram nossos líderes políticos?

Em países como Guatemala ou o Haiti, que ainda contam com uma alta porcentagem da população com fome, é necessário implementar uma estratégia ampla e transversal, ou seja, que abranja todos os setores das sociedades. O Plano de Segurança Alimentar e Nutricional da CELAC ou a Iniciativa Mesoamérica sem Fome, contam com propostas baseadas nas melhores e mais exitosas experiências regionais. Esses países, especialmente o Haiti, necessitam da cooperação internacional, que para ser frutífera deve ser acompanhada de uma forte vontade política nacional e de longo prazo, superando a lógica humanitária e ligando a redução da fome à promoção do desenvolvimento sustentável.

Nos países que já têm a meta à vista, mas que ainda não podem cantar vitória, a estratégia básica, que tem funcionado em décadas anteriores, deve ser ajustada. Esses países entram na etapa mais dura da luta contra a fome, a que persiste em bolsões sociais e territoriais de pobreza profunda, onde fatores como as fraquezas institucionais, as desigualdades étnicas de gênero, a exclusão social ou o isolamento geográfico tornam as políticas usuais menos eficazes.

É como um alpinista que busca chegar no topo do Everest: o esforço dos últimos 500 metros é muito maior do que os anteriores e, para alcançar a meta, deve-se recorrer a estratégias especiais. A FAO propõe que sejam identificados com precisão os bolsões sociais e territoriais da fome, país por país, para que cada um deles desenhe um programa feito à sua medida.

Há um fator, porém, que é o mais importante em qualquer um dos países. A América Latina e o Caribe só poderá anunciar que é uma região livre da fome em 2030 se nossos líderes políticos, sociais, empresariais, todos e cada um de nós, percebermos com convicção que ter populações famintas é uma afronta à nossa própria dignidade e uma marca vergonhosa que não estamos dispostos a tolerar.