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Revolução de Outubro deixou alerta contra o neocolonialismo

09/10/2017 15:17

Por Cezar Xavier
Da Fundação Maurício Grabois 

Na terça-feira 3 de outubro, Losurdo esteve no Sindicato dos Engenheiros, no Centro de São Paulo, para apresentar seu ponto de vista sobre os legados e lições que deixa a Revolução Russa em seu centenário. Foi um evento promovido pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), da Fundação Maurício Grabois e da Editora Boitempo, que trouxe o filósofo ao Brasil para um seminário internacional, ocorrido na última semana no Sesc Pinheiros (São Paulo).

Losurdo destaca o fato da Revolução ter ocorrido em meio à carnificina da 1a. Guerra Mundial, iniciada em 1914, e contra ela. Até então, pontua ele, as guerras eram inquestionáveis em sua necessidade de defesa nacional e na sua demanda por sangue. “A partir de 1917, a guerra não é mais considerada um fato natural, mas um fato político e econômico, segundo Marx, é um fato que advém primeiramente do capitalismo”, diz Losurdo.

O filósofo observa que, Marx já percebera que, apesar da Revolução Francesa ter levantado a questão da emancipação política, ela não era completa, na medida em que as mulheres, trabalhadores assalariados, populações negras e colonizadas estavam sob um jogo de opressão e fora das decisões políticas. Losurdo é um ferrenho questionador da retórica liberal, frequentemente desconstruindo os valores nobres como liberdade, igualdade, democracia, restritos apenas àqueles que dispõem do capital para pagar por eles, em especial para as populações dos países colonizadores.

No entanto, Marx se iludia em acreditar que a sociedade burguesa seria capaz de gerar espontaneamente essa emancipação política e social, conforme incluísse aquelas populações oprimidas. Mas foi a Rússia revolucionária que tornou concretude histórica a emancipação política das mulheres, fato prontamente observado por Gramsci ao definir aquela como uma “revolução proletária”. No Ocidente, as mulheres só vão conquistar seus direitos políticos muito tarde, como na França e Itália, em que isso ocorre apenas após a Segunda Guerra Mundial, já que participaram ativamente da resistência antifascista. “Os direitos adquiridos, então, não são um presente da burguesia e do estado liberal, mas resultam da Revolução de Outubro”, afirma ele.

Do mesmo modo, as populações colonizadas negras ou não brancas eram discriminadas de diversas formas, não sendo consideradas dignas de constituir um estado nacional independente. Losurdo denuncia a, frequentemente ignorada, situação dos negros nos EUA antes de outubro de 1917, alijados que estavam de direitos políticos e civis, e vulneráveis à injustiças e brutalidades abominadas até pelos conservadores europeus. Os linchamentos violentos de negros eram tratados como espetáculos de divertimento das populações brancas, inclusive das crianças.

O eclodir da Revolução de Outubro mudou muito o quadro, particularmente, no que refere aos povos colonizados. Losurdo anota que, àquela época, o mundo inteiro era propriedade de um pequeno grupo de países europeus. Quando o Ocidente se gaba de ter instaurado a democracia no mundo, ao mesmo tempo, ignora toda e qualquer orientação da ONU, e promove a guerra onde lhe interessa. Losurdo diz que, toda e qualquer compreensão de avanço democrático só é possível a partir do parâmetro da Revolução de Outubro.

Outra transformação cultural importante, desde então, foi que, durante muito tempo, o racismo, visto hoje como um horror, era visto de forma positiva, como um valor científico que instaurava a superioridade das populações brancas sobre os povos coloniais não brancos. “Foi a Revolução de Outubro e o movimento comunista que colocou em discussão essa visão racista”, afirmou.

Assim, uma primeira conclusão importante que Losurdo aponta como legado da Revolução de Outubro é o fim do sistema colonialista escravista. O pensador, então, propõe uma reflexão sobre a importância desse movimento como protagonista da história da liberdade, enquanto o pensamento hegemônico procura desqualificá-lo como parte de um movimento totalitário.

Para Losurdo, não é possível entender o avanço nazista sem a tradição liberal e colonial. Não apenas Hitler, mas toda burguesia ocidental considerava que, após a Revolução, a Rússia vivia sob domínio bárbaro. “A guerra declarada por Hitler contra a Rússia tinha como objetivo retomar e radicalizar o sistema colonial escravista, seguido pelo Japão que quer construir seu império colonial escravista na Ásia, sobretudo contra a China”, resume ele. Os resultados da revolução anticolonial da China contra o Japão, liderada pelo Partido Comunista Chinês, fundado após a Revolução de Outubro, são amplamente conhecidos.

Losurdo defende que o colonialismo não desapareceu. A dificuldade de certa esquerda perceber isso tem levado ao filósofo a enfatizar este aspecto sempre que tem oportunidade. Há amplos setores da esquerda, principalmente na Europa, que defendem as brutais intervenções dos EUA em países em desenvolvimento, em nome de uma suposta democracia, sem entender o caráter colonialista da estratégia americana, além de não entender o controle com mão-de-ferro por governos fortes nesses países vulneráveis ao colonialismo. O valor ocidental da eleição direta se impõe, ainda que todo o povo seja sacrificado em guerras civis e desmonte institucional de sua nação.

Para Losurdo, o colonialismo clássico só resiste como exceção, como é o caso da Palestina. Mas a expansão neocolonial pode ser explicada por Mao Tse Tung, quando a revolução cria a República Popular da China, mas ele diz, em 1949, que o país continuará sendo uma semicolônia, enquanto depender do trigo dos EUA. Em outro tempo e espaço, o teórico da revolução argelina, Frantz Fanon, escreve que quando o imperialismo é obrigado a ceder a independência a um povo que é protagonista de uma grande revolução, dizem: “Vocês querem a independência? Pois bem, fiquem com ela, mas morram de fome”.

Assim, Losurdo observa que ambos perceberam que há uma segunda etapa da revolução anticolonial, que é libertar-se da ameaça de morrer de fome. Daí, a importância de entender o esforço econômico gerado por uma nação como a China. “O fato de livrar 800 milhões de chineses da fome alegra não apenas os comunistas, como qualquer democrata”, afirmou.

Ele ainda cita um economista conservador, Samuel Huntington, que, nos anos 1990, admite que, se a massiva industrialização chinesa for bem sucedida, este será o fato mais importante dos últimos 500 anos. Losurdo salienta que o sucesso chinês põe fim, então, ao período colombiano, em que a Europa dominou e explorou o mundo todo como colônia, aproveitando-se da superioridade tecnológica e militar. “Agora, sim, podemos realmente falar em democratização do mundo, embora o imperialismo reaja a esse processo, ameaçando guerras de larga escala”, afirma ele, lembrando as inúmeras guerras que eclodiram desde os anos 1980.

Losurdo lembra que, quando do colapso soviético, a imprensa burguesa afirmava que não apenas o socialismo havia sido derrotado, mas todo o movimento altermundista, aquele que defende a soberania dos países de terceiro mundo.

“Lembrar a Revolução de Outubro significa dar nova vida a luta pela paz e contra os perigos da guerra. Retomar a bandeira daquela revolução significa apoiar a revolução anticolonial, contrastar as tentativas do ocidente para destruir o bem estar social; quer dizer continuar a luta contra a austeridade e a polarização social e prestar particular atenção na luta pela paz”, conclui ele.