Instituto Lula

Menu

Estado é cobrado por genocídio da juventude negra

11/10/2017 12:13

Para ativistas, genocídio significa o 'extermínio sistemático de pessoas, tendo como principal motivação as diferenças' (reprodução/geledés)

Da Rede Brasil Atual 

“Rebeldia. Para nós, como mães ingovernáveis, só resta a rebeldia. Essas palavras mexem com meu útero e com cada mãe que perdeu seu filho. Por rebeldia, falamos em processos arquivados pela ponta do fuzil da caneta dos doutores", afirmou Débora da Silva, integrante do coletivo Mães de Maio. Débora perdeu seu filho para a violência policial no massacre de maio de 2006. E participou nesta terça-feira (10) de audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo.

A iniciativa partiu do gabinete da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB) e de diferentes coletivos atuantes do movimento social. O objetivo foi discutir como as sucessivas ocorrências de violência e mortes contra a juventude negra são acompanhadas de impunidade, por omissão e cumplicidade do poder público. 

“Falamos muito de violência policial, mas devemos também falar da violência do Judiciário. Eles ficam na bolha de conforto enquanto atacamos apenas parte desse sistema corrosivo. O sistema dele foi feito para nós. O Judiciário de nosso estado vem na mesma lógica do extermínio. Vemos isso quando não pedem a condenação do estado", Claro eles querem cargos comissionados. Sabemos disso. Isso é dito mesmo por eles. A impunidade é velada pelo Judiciário. Eles atacam a população pobre e preta. Eles têm dois pesos e duas medidas. Não podemos aceitar”, afirmou Débora.

Leci Brandão ressaltou que a violência contra a juventude ainda é rotina nas periferias. “Tenho ido às quebradas e o povo não sabe o que significa genocídio. Se falar que estão passando o rodo todos entendem. Estão promovendo uma grande matança. Então, temos que tomar cuidado até com a palavra genocídio. Boa parte da população não intende”, disse.

A deputada define o genocídio da população jovem negra significa como o extermínio sistemático de pessoas, em razão de diferenças de nacionalidade, raça, religião e, principalmente, étnicas. "É uma prática que visa a eliminar supostas minorias em determinadas regiões. Só que não estamos falando em minorias no Brasil. Somos maioria. Nós, negros, somos mais da metade dos brasileiros."

Participaram da audiência representantes da Convergência Negra, Marcha Mundial das Mulheres Negras, Rede de Enfrentamento ao Genocídio, Frente Alternativa Preta, Mães de Maio, além de parlamentares da oposição ao governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

“Vivemos tempos sombrios em relação ao papel transformador da política, mas momentos como essa audiência renovam minha esperança de que é possível construir uma nova política de segurança pública”, afirmou Thiago de Souza, representante do gabinete do deputado federal Paulo Bezerra (PSB-SP).

“O que me motivou a entender o processo de morte da juventude negra foi um encontro que tive em um dia caminhando para o meu trabalho", disse a assistente social Claudia Adão, ativista da Convergência Negra, que atua no extremo leste da cidade de São Paulo. 

“Neste determinado dia, encontrei corpos de três meninos que tinham sido assassinados durante a madrugada. Fiquei impactada com a cena e com a indiferença das pessoas diante daquele cenário. Fiquei me perguntando: Por que isso? Por que no trajeto encontro negros mortos? Quando trabalhei no bairro de Higienópolis (zona nobre da região central) isso nunca aconteceu. A obviedade dessas perguntas desnudam um universo cruel. Existe uma articulação entre homicídios e pobreza na cidade de São Paulo”, disse.

Para Claudia, a exclusão da população negra de deu durante os períodos pré e pós abolição, quando os negros ficaram de fora do mercado de trabalho, das escolas, da assistência à saúde. E se estende até hoje como parte da segregação urbana. “Conhecemos os números, agora queremos medidas eficazes para que nossos meninos e meninas parem de morrer”, cobrou.