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Discurso de Lula no Diretório Nacional do PT

30/10/2015 07:43

Discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reunião do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada em 30 de outubro de 2015, em Brasília. 

Mídia

Falei com o Rui Falcão (presidente do PT) que era importante abrir o evento para a imprensa para ver se ela consegue retratar – com erros e acertos – exatamente aquilo que eu falo, e não ficar me interpretando. Sinceramente, o que me deixa um pouco chateado é que nunca me perguntam alguma coisa e no outro dia é manchete. Lula disse isso, Lula disse aquilo. Lula pede isso, Lula pede aquilo, que Dilma vai no aniversário de Lula e não conversa com o Lula. Bom, se a Dilma não quisesse conversar comigo porque ela foi no meu aniversário? Não sei se é por falta de assunto, ou por má-fé, pedi para abrir a reunião e deixar os companheiros escrever.

Conjuntura Política

A primeira coisa é que eu acho que nós devemos fazer no nosso partido é uma aferição correta sobre a conjuntura política. Certamente nós não vivemos no nosso melhor momento. Nós vivemos um momento de acirrado bombardeio contra o PT e contra os petistas. Acho que poucas vezes na história; acho que nunca houve na história desse País, um bombardeio que o nosso partido recebe 24 horas por dia. A tendência natural é a gente ficar muito nervoso quando vê essas coisas acontecerem; tanto xingamento ao PT, tantas críticas ao PT; tanta coisa ao Lula, tanta coisa a Dilma, tanta coisa a figuras públicas do PT. Isso tem uma explicação. Eles (oposição) sabem que nós somos infinitamente maiores do que meia dúzia de companheiros que pode justamente ou injustamente estar pagando o preço de possíveis erros cometidos. Eles sabem disso. Eles sabem que esse partido, sempre que foi colocado em xeque, reage como se fosse Fênix: renasce das cinzas mais forte do que ele estava antes de qualquer crise. Eu sou daqueles que estou convencido que eles esperem as eleições de outubro de 2016 para perceberem o que vai acontecer nesse País. Na lógica deles, o PT sairá do mapa eleitoral como nós tiramos o Brasil do mapa da fome. Eles sabem disso. E essa crítica acirrada ao nosso partido tem um objetivo. O objetivo é tentar apagar da memória deste povo um legado de doze anos que é o mais profícuo legado deixado por um governo na história do nosso País.

Ataques

Há muito tempo vinha dizendo que o PT nunca é atacado pelas coisas más que ele faz. O PT muitas vezes é atacado pelas coisas boas que ele conseguiu promover neste País. Vocês se lembram que nem o orçamento participativo era aceito no começo do PT, como o Bolsa Família não foi aceito, como o aumento do salário mínimo não foi aceito, ou seja, eles sempre trataram de achar que o PT estava fazendo as coisas erradas. Incomoda esse partido continuar mudando a história e fazendo com que as pessoas mais humildes possam subir mais um degrauzinho na escada da escala social que tanto o povo precisa e que tanto nós queremos que eles subam.

Problemas Políticos

Nós tivemos problemas políticos sérios e nós temos que encarar. Todo mundo sabe que nós temos. Depois que nós ganhamos a eleição mais difícil da qual participamos, uma eleição difícil pela agressividade da campanha contra a nossa presidenta Dilma Rousseff, nós tivemos um grande problema político, sobretudo com a nossa base, quando nós tomamos atitude de fazer o ajuste que era necessário fazer e nós estávamos discutindo com os trabalhadores quando de repente foi anunciado no dia 29 de dezembro as mudanças em algumas áreas sociais, o que deixou a nossa gente muito nervosa, muito irritada.

Essa crise política se arrastou por muito mais tempo não apenas por conta disso, mas ela se arrastou do ponto de vista da construção da coalização política. Queria lembrar os companheiros do PT que eu sempre digo que seria maravilhoso se um dia o PT pudesse disputar uma eleição e elegesse 513 deputados, ou 400 deputados, 27 governadores e o PT tivesse maioria absoluta. Vocês acham que o PT ia ter calma? O PT ia brigar internamente como se fosse gente grande. E nós íamos ter os mesmos problemas que nós temos. As divergências que nós temos internamente não são menores do que outras divergências que provocamos aí fora. Então, o ideal seria que a gente disputasse uma eleição e fizesse maioria, senão, o segundo ponto ideal seria ganhar as eleições só com os partidos de esquerda, só com os companheiros que pensam igual a gente. Mas não é possível também. Então, nós temos que ganhar as eleições com quem participa da coalizão conosco. E nós construímos uma coalizão muito ampla. É uma coalizão que tem vários partidos políticos, que o espectro ideológico escrito por qualquer cientista político seria considerado partido conservador ou partido de direita, mas se comportaram porque assumiram compromissos programáticos conosco e nos apoiaram e é com essa gente que nós temos que governar. São com esses companheiros que têm que participar do governo, para a gente construir não apenas a nossa governança, mas para a gente construir a maioria dentro do Congresso Nacional.

Desafio

Qual é o problema que nós enfrentamos? O problema é que, apesar de ter sido feito tudo isso, nós estamos percebendo que os partidos estão mais enfraquecidos. As direções dos partidos já não têm mais o poder que tinha há um tempo atrás. Os líderes dos partidos dentro da Câmara não conseguem mais liderar suas bancadas. Hoje os partidos funcionam por grupos de interesse, funcionam por regiões. Muitas vezes você acaba de fazer acordo com o partido de um, que tem quinze deputados, bate, carimba, vai no cartório, faz uma reunião e passa e vem outro e diz que aquele acordo não vale porque não lhe atende.

Eduardo Cunha

Então, ficou um pouco mais complicado fazermos acordo dentro do Congresso Nacional e uma outra coisa importante dizer aqui: é que tem um componente novo que são as forças do Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) ao lado de um conjunto muito grande de deputados. E o Eduardo Cunha diz para muita gente: que ele não lidera aquela quantidade de deputados, porque aquela quantidade de deputados está insatisfeita com a gente e por isso a única coisa que ele faz é facilitar que eles coloquem aquilo querem em votação.

Se é verdade ou mentira não sei. O dado concreto é que nós estamos vivendo uma situação de estranheza de comportamento no Congresso Nacional. Os partidos estão enfraquecidos, além do que têm muitas bancadas que não obedecem a direção dos partidos, não obedecem o líder, cada um tem seu líder, tem seu grupo, seu jogo de interesse. Obviamente que o PT virou uma espécie de sapinho feio, a coisa rejeitada, ou seja, na medida que o partido começa a ser atacado, ser acusado, muita gente começa a se afastar do PT.

Restabelecer pontes

De um tempo para cá a presidenta Dilma começou a agir pessoalmente e começou a discutir diretamente com os partidos. A gente sente que nos últimos dois meses houve uma melhora na relação política e a tendência é que a gente possa consolidar essa relação política dentro do Congresso Nacional.

E porque nós precisamos restabelecer? Porque é preciso governar o País e é humanamente impossível imaginar que alguém pode governar um país na situação política que nós estamos vivendo hoje. Nós estamos fazendo exatamente aquilo que a oposição quer que a gente faça, que é não governar. É por isso que é preciso atrapalhar o máximo possível a presidenta Dilma. O conselho que dou para a presidenta Dilma é: não veja manchete de jornal. Porque quando a gente vê manchete de jornal a tendência é a gente trabalhar por conta da manchete e a gente não pode permitir que sejam eles que façam a nossa pauta. A nossa pauta somos nós que fazemos, com os nossos compromissos assumidos nas eleições de 2014.

Oposição

Um fato sui generis no Brasil que a oposição fez com a presidenta, depois do dia 26 de outubro, foi pedir a recontagem de votos. Depois que pediram recontagem de votos, uma coisa que a gente não tinha esse hábito no Brasil, eles apresentaram neste ano 19 pedidos impeachment, sem nenhuma base legal. Apresentaram quatro ações no TSE para anular as eleições e tem nossos adversários apostando na teoria do quanto pior melhor, por que isso faz com que a gente não coloque em prática aquilo que a gente sabe fazer tão bem que é governar o País.

Medidas do ajuste

A prioridade zero nesse País é a gente criar condições para aprovar as medidas que a presidenta Dilma mandou para o Congresso Nacional, para que ela encerre definitivamente essa ideia de ajuste e a gente possa ver a economia brasileira voltar a crescer, fazer a geração de emprego e a renda que nós queremos que continue chegando ao bolso do povo trabalhador. Sem a conclusão desse ajuste nós ficamos numa confusão política e numa intranquilidade muito grande. Nós não temos o direito de permitir que se discuta o impeachment da forma que se quer discutir, sem nenhuma base legal e sem nenhuma razão. Porque se a moda pega, qualquer um que perde a eleição entra com pedido de impeachment. Nós já temos uma coisa mais assim que é a judicialização da política. Toda a oposição que perde entra na justiça para anular a vitória daquele que ganhou. E nós temos coisas fantásticas no Brasil. Nós temos governadores que foram cassados faltando seis meses para as eleições e depois se candidatou senador e ganhou oito anos de mandato. Na verdade a punição foi um prêmio.

CPMF

Nós não podemos ficar mais seis meses esperando discutir CPMF. Nós temos que começar a votar amanhã, se fosse o caso, porque tudo o que interessa à oposição é que a gente arrume 500 pretextos para discutir qualquer assunto e depois a gente não discutir o que interessa de verdade que é aprovar as coisas que a Dilma mandou para o Congresso Nacional. Primeiro vamos tentar derrubar o Eduardo Cunha, depois derrubar o impeachment e depois, se as coisas darem certo, a gente vota as coisas que a Dilma quer. Acho que é importante a gente medir, porque o tempo do governo é um tempo que urge. Vocês sabem que nossa situação é uma situação que precisamos urgentemente começar a recuperar o potencial que a presidenta já teve, ou será que vocês não acompanham pesquisa de opinião pública?

Ricardo Berzoini

Bem, se a situação política é assim, sempre muito tensa, sempre muito nervosa, sempre muito cheia de boatos, acho que o Ricardo Berzoini (Secretário do Governo) está fazendo um trabalho nesses últimos dias que ninguém mais se queixa que não tem conversa. Há muita conversa, há muita discussão, inclusive a própria bancada do PT quando eu chegava a Brasília, a primeira coisa que ouvia é que não tinha conversa. Agora, estão tendo conversa todo santo dia. Eu acho que houve uma mudança extraordinária nessa relação com o Congresso e acho que agora as coisas começaram a ficar mais fáceis, pelo menos é o humor da bancada do PT.

Economia

Outra coisa que incomoda os companheiros é a questão econômica. Eu convivo com vocês muito tempo, e da mesma forma que vejo companheiros falarem fora Levy, eu já ouvi falar Fora Palocci, Fora Mantega. Eu já vi um monte de coisa, vi até Fora Fred (da Seleção brasileira). É importante lembrar que nós chegamos em dezembro de 2014 com apenas 4,8% de desemprego nesse País. Isso é um fato. Fui dirigente sindical por muito tempo e eu jamais imaginei que a gente tivesse no Brasil 4,8% de desemprego. Isso era coisa para Alemanha, era coisa para Finlândia, para Dinamarca, Noruega, Holanda, não para um País como o Brasil. E tem gente que simplifica e diz para reduzir a taxa de juros tem que desempregar. Obviamente que a Dilma, mais do que ninguém, quer reduzir a taxa de juros. Mas a taxa Selic está a 14,5% e o juro futuro chega a 17% ao ano. Isso significa que, mesmo aumentando a taxa de juros, não há confiança que vai reduzir a inflação. Não há confiança que vai cair a inflação. Nós temos um problema Lindbergh (senador Lindbergh Farias – PT/RJ) chamado na economia, que muita gente não coloca nos livros que escreve, que é a palavra chamada con – fi – an – ça. Eu tenho que acreditar naquilo que a pessoa fala porque o que ela fala vai acontecer.

É bem possível que aumentando a confiança aumente a facilidade para fazer as mudanças necessárias na economia. Então, de vez em quando, fico ouvindo os companheiros a gritar Fora Levy com a mesma facilidade que gritavam Fora FMI e não é a mesma coisa.

CAE

Então, Lindbergh, você que é membro ativo lá na CAE – Comissão de Assuntos Econômicos do Senado) eu acompanho de vez em quando, queria te dizer o seguinte: fico imaginando a situação do nosso País. A União, com pouca capacidade de investimento porque tem pouca capacidade de arrecadação, é por isso que a Dilma mandou a CPMF que seria uma opção mais razoável, por isso mandou o projeto de repatriar dinheiro de lá fora, que eu achava uma coisa boa, mas o estado está com baixa capacidade de arrecadação. A União não arrecada, o estado não arrecada, os municípios não arrecadam, os empresários não estão fazendo os investimentos que deveriam fazer porque não confiam na certeza política do que vai acontecer porque é tudo muito incerto. Eu falei de 19 pedidos de impeachment. Sabe, denúncias contra o presidente da Câmara, denúncias contra o presidente do Senado, denúncia contra o filho do Lula, denúncia contra o Lula. Eu que ainda tenho três filhos que não foram denunciados e tenho sete netos. E ainda tenho uma nora que está grávida. Me criaram um problema desgraçado, porque não levam à sério quando fazem essas críticas. Tenho quatro noras e disseram que uma recebeu dois milhões e aí perguntaram quem que está rico nesta mesa. Daqui a pouco uma nora começa a abrir processo contra a outra, para repatriar o dinheiro. Então, eu só queria que vocês não ficassem preocupados com esses problemas porque digo sempre: ninguém, podem ter certeza, ninguém precisa ficar com pena. Se tem uma coisa que aprendi na vida é enfrentar adversidades. Podem ter certeza. Se o objetivo é truncar qualquer perspectiva de futuro, então vão ser três anos de muita pancadaria. Três anos. E podem ficar certos: eu vou sobreviver. Não sei se eles sobreviverão com a mesma credibilidade que eles achem que têm. Mas eu vou sobreviver. Então, eu acho que nós temos que ter em conta que a recuperação da economia é o melhor trunfo que nós temos, inclusive para recuperar o nosso governo diante da sociedade, diante dos trabalhadores, diante daqueles que votaram na Dilma no dia 26 de outubro de 2014. A economia é a melhor coisa para a gente recuperar isso. É através da economia que a gente vai mostrar que as coisas começam a melhorar. O nosso povo aprendeu a subir o segundo degrau, o segundo andar da senzala. Ele queria chegar no terceiro e aí veio a crise e ele ficou pensando: será que eu vou descer?,

Política de crédito

Vejo que temos que fortalecer uma grande política de crédito nesse País. O Banco do Brasil já está começando a financiar a chamada cadeia produtiva. Posso dar um exemplo: o BB pega uma empresa mãe que tem 500 fornecedores e empresta dinheiro para essas empresas pequenas a taxa de juros menores. É um jeito de tocar a economia e já tem aí uns 800 milhões emprestados para várias empresas. Precisamos de crédito para o consumo. A melhor forma da gente recuperar a capacidade arrecadatória do Estado é voltar a crescer. O trabalhador não pode ser tratado como se fosse uma gangorra. É preciso que a gente saiba que é importante manter todas as conquistas que nós tivemos. Na minha opinião, Lindbergh, a CAE poderia fazer um estudo profundo sobre o mercado interno. A economia só vai se recuperar se o povo consumir.

Movimentos sociais

É importante o PT não esquecer que a base de sustentação do nosso partido nesse momento difícil está na lealdade, no compromisso e no comportamento do movimento social. Vários movimentos. Quando a gente estava bem, crescendo a 6% a 7%, eram mais oposição do que a gente. Agora, não crescendo, eles sabem que se a situação está difícil agora; eles sabem que vai ficar mais difícil quando o tucano chegar ao poder. Aí eles vão ver como é que vai ficar difícil. Não é que eles vão deixar de ganhar, eles vão perder o que nós ganhamos. E o movimento tem defendido o governo na rua, defendendo o governo no trabalho e isso tem sido uma base extraordinária de sustentação que dá oxigênio e motivação para a nossa presidenta.

Educação

Fico imaginando que se o movimento social estivesse carrancudo e falando mal do governo como é que a gente estaria nisso. Quero, de público, dizer para o PT o que eu acho. Fiz uma experiência agora na Bahia e no Piauí, para discutir a questão da educação que é outro assunto que eu vou colocar na pauta. O que eu vi no Piauí, e não foi numa escola preparada para eu ir, com os alunos bem vestidos, limpinha. Fui ver o funcionamento de uma das 150 escolas de tempo integral. O estado do Piauí, embora seja um estado pobre, ele tem uma cidade chamada Cocal dos Alves que tem só seis mil habitantes, mas tem 150 medalhistas das Olimpíadas de Matemática. Fui lá buscar isso, como exemplo. Na Bahia conheci a experiência da eleição direta de líderes de classe. Já foram eleitos 36 mil líderes dentro da classe. Meninos e meninas que vão liderar classes, na reunião com os diretores, na reunião com os professores, na reivindicação e na cobrança do comportamento. Fiquei lá sentado, ouvindo mais de uma hora e meia, eles falarem do conceito de liderança. Seria tão bom se todos nós ouvíssemos. Seria tão bom que todo mundo ouvisse sobre o que eles pensam sobre liderança. Eu acho que nós poderemos utilizar isso para fazer a revolução educacional que esse País não fez em cinco séculos.

PT