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"Não existe mais nenhuma razão de se manter o bloqueio", diz Lula em Cuba

30/01/2013 23:39

“Não existe mais nenhuma razão de se manter o bloqueio [de Cuba] a não ser a teimosia de quem não reconhece que perdeu a guerra, e perdeu a guerra para Cuba”, disse hoje, dia 30, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao discursar no encerramento da 3ª Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, patrocinada pela Unesco.“Espero que [Barack] Obama neste mandato tenha um olhar mais igualitário e mais justo para a nossa querida América Latina”, defendeu o ex-presidente. E completou: “Como sou otimista, eu acredito que um dia os Estados Unidos vão rever a sua posição, e espero que seja no governo Obama, pois tem nenhuma razão para continuar com o bloqueio a Cuba.”

Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.

A Conferência, a terceira realizada em 10 anos, é patrocinada pela Oficina do Programa Martiano, que se propõe a debater internacionalmente a contribuição intelectual do herói da independência cubana, José Martí. O evento coincide com os 160 anos de Martí e com o aniversário de 60 anos da invasão do Quartel Moncada, um importante marco da revolução cubana, e reuniu cerca de 1500 participantes, dos quais 800 estrangeiros de 44 países.

Lula abriu o seu discurso pedindo um minuto de silêncio para as vítimas do incêndio em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e fez uma homenagem a Hugo Chavez, que se encontra internado em Havana, em tratamento de saúde. E ressaltou a importância do evento para a integração latino-americana. “Vocês não podem voltar para suas casas e simplesmente colocar isso [a participação no evento] nas suas biografias. É necessário que vocês saiam daqui cúmplices e parceiros de uma coisa maior, de uma vontade de fazer alguma coisa juntos mesmo não estando reunidos”, afirmou Lula. A interação permitida pelos meios de comunicação modernos, como a internet, abre grandes possibilidades de furar o bloqueio de informação imposto pela mídia tradicional aos governos progressistas e ao processo de integração latino-americano. “Nunca tivemos tanta oportunidade de sermos tão independentes”, observou.

“Nem reclamo, porque no Brasil a imprensa gosta muito de mim”, ironizou o ex-presidente. E deu a sua opinião sobre a razão pela qual a mídia tradicional tem resistência a ele: “Eu nasci assim, eu cresci assim e vou continuar assim, e isso os deixa [os órgãos de imprensa] muito nervosos”. O mesmo se aplicaria aos outros governos progressistas da América Latina: “Eles não gostam da esquerda, não gostam de [Hugo] Chávez, não gostam de [Rafael] Correa, não gostam de Mujica, não gostam de Cristina [Kirchner],não gostam de Evo Morales, e não gostam não pelos nossos erros, mas pelos nossos acertos”, disse. Para Lula, as elites não gostam que pobre ande de avião, compre um carro novo ou tenha uma conta bancária.

“Quem imaginava que um índio, com cara de índio, jeito de índio, comportamento de índio, governaria um país e, mais do que isso, seu governo daria certo?”, indagou Lula, referindo-se a Evo Morales, presidente da Bolívia. Ele contou que a direita brasileira queria que ele brigasse com Evo, quando ele estatizou a empresa de gás boliviana, que era de propriedade da Petrobras. “Aí eu pensei: eu não consigo entender como um ex-metalúrgico vai brigar com um índio da Bolívia”, contou o ex-presidente, sob os aplausos da plateia.

Transcrição da primeira parte do discurso de Lula na conferência:

Discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na III Conferência pelo Equilíbrio do Mundo, em Havana, dia 30 de janeiro de 2013

Querido companheiro Armando Hart, diretor do Programa Martiano, querido companheiro José Ramon Balaguer, membro do secretariado do partido comunista de Cuba, querido companheiro Rafael Bernal, ministro da Cultura da República de Cuba, nosso querido companheiro Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, meu querido companheiro Hernandes Pardo, sub-diretor do Programa Martiano, meu companheiro Frei Betto, meu querido companheiro Rolando Alfonso Borges, chefe do Departamento Ideológico do Partido Comunista de Cuba, meu querido companheiro Pablo González Casanova, ex-diretor da Universidade Federal do México, Ignacio Ramonez, jornalista e escritor francês, Fernando Morais, que lançou seu livro ontem.

Companheiros... Eu estou vendo tanta gente... Quando eu era presidente, eu recebia uma nominata com os nomes de todos os de todos os funcionários e autoridades presentes, mas agora como ex-presidente, não me dão essa nominata. Por isso me ponho a pensar como cito o nome das pessoas, me esqueço o nome de outros companheiros, mas, neste plenário, me refiro a companheiros extraordinários que, junto comigo, fizemos política nos últimos dez anos, construindo algo que parecia impossível até algum tempo, tanto na América do sul como na América Latina. Eu queria, primeiramente, pedir a paciência de vocês e pedir um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da tragédia daquela discoteca no Brasil. Muito obrigado.

Em segundo lugar, eu não vim com uma guayabera branca como os cubanos costumam usar. Também queria prestar homenagem a outro companheiro nosso, que tem muito a ver com tudo que está ocorrendo em nossa querida América do Sul e América Latina e que a energia positiva deste encontro Martiniano possa ajudar nosso querido companheiro Chávez para que se recupere rapidamente (APLAUSOS E MANIFESTAÇÕES DE APOIO A CHÁVEZ NA PLATEIA). Depois, quero dizer que cheguei um pouco atrasado, só um pouquinho, porque fui fazer uma visita a um grande companheiro, o companheiro Fidel Castro (APLAUSOS E MANIFESTAÇÕES DE APOIO A FIDEL NA PLATEIA). Depois, ninguém é de ferro, eu fui almoçar com nosso companheiro Raúl Castro (APLAUSOS NA PLATEIA). E agora estou aqui, junto com tantos companheiros da América Latina, da Argentina também (APLAUSOS NA PLATEIA), o ex-presidente da República Dominicana , companheiro Leonel Fernández (APLAUSOS NA PLATEIA), companheiro de tanto tempo, nosso querido companheiro Colón ex-presidente da Guatemala (APLAUSOS NA PLATEIA). Faz falta a nominata.

Eu estou emocionado, estou emocionado por algumas razões. A primeira vez que eu utilizei esta mesma tribuna foi em 1985, em um encontro que o governo cubano convocou. Era uma série de três encontros na realidade. O primeiro deles era uma reunião de intelectuais latino-americanos sobre a Dívida Externa. Depois, uma reunião dos partidos também sobre a Dívida Externa e uma reunião com os sindicalistas também sobre a Dívida Externa. O pior é que o Vinhedo estava em todas as reuniões, em todas elas. Ele e o Fidel Castro participaram do primeiro ao último minuto. Ele saía correndo da República Dominicana e vinha para cá. E aqui eu fiz meu primeiro discurso nesta mesma tribuna, eu, que tinha ficado emocionado quando vi o Fidel fazer o primeiro discurso em 19 de julho de 1980, também levado por Frei Betto para a Nicarágua para celebrar o primeiro aniversário da Revolução Sandinista e foi o momento em que eu conheci o Fidel Castro. Foi o momento em que, pela primeira vez, comi lagosta. Naquele tempo, um ano depois da Revolução Sandinista, se podia comer lagosta em Nicarágua. E então construímos um estado que já dura 30 anos e penso que durará por muito mais tempo, até que Deus já não queira que estejamos em terra e até que nos encontremos em outro lugar.

Mas Cuba tem um significado muito especial para todos nós latino-americanos, inclusive para os que são contra a Revolução Cubana. A força moral construída por esse povo em defesa da sua dignidade e da sua soberania faz com que, inclusive os que não simpatizem com Cuba, respeitem a força moral do povo cubano e do governo cubano (APLAUSOS NA PLATEIA).

Ontem eu não pude participar do encontro, portanto, não vi Frei Betto receber o prêmio, não vi os discursos de outros companheiros, mas pude participar do lançamento do livro do companheiro Fernando Morais, que conta a história dos últimos soldados da guerra fria, a história desses cubanos presos nos Estados Unidos. E eu dizia ao presidente Raúl, que, quando eu era presidente da República do Brasil, visitei os Estados Unidos e esse foi um tema que eu tratei com o presidente Bush. Lamentavelmente, me parece que os americanos têm uns ouvidos surdos quando se trata de problemas da nossa querida América Latina. Parece que essa parte do mundo não desperta o interesse que deveria despertar no país mais rico do mundo. Estamos muito maios perto que tantos outros países. Temos condições de produzir muito mais que muitos outros países, mas me parece que os americanos somente enxergaram a América Latina quando foi para favorecer os golpes militares da década de 1960. Isto é lamentável. E espero que o presidente Obama, neste seu segundo mandato, tenha um olhar mais igualitário e mais justo para nossa querida América Latina e, sobretudo, para acabar com o bloqueio contra Cuba, porque não existe razão nenhuma para mantê-lo (APLAUSOS NA PLATEIA), somente a teimosia de quem não reconhece que simplesmente perdeu a batalha e que perdeu contra Cuba. Esse orgulho é uma coisa pequena para um povo de um país tão grande que deveria ter um governo que deveria pensar tão grande quanto é de se supor. Mas eu sou uma pessoa otimista. Creio, sinceramente, que algum dia Estados Unidos, e espero que seja durante o governo do presidente Obama, tenha um olhar e se dê conta que não há razão nenhuma para manter o bloqueio contra Cuba.

Bem, dito isso, vocês viram que, quando subi aqui, eu subi com um discurso, mas não se assustem, porque não falarei tanto quanto Chávez nem muito menos Fidel e nem tanto quanto Cristina (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA). Falarei apenas do tamanho do discurso da presidente Dilma, que fala muito menos do que eu.

Uma coisa importante é que nós estamos participando deste evento em comemoração aos 160 anos de nascimento de Martí e combina com os 60 anos do assalto ao quartel Moncada, este movimento tão importante na história da Revolução Cubana. Quero dizer aos cubanos que eu sinceramente não tinha dimensão de que esse evento despertaria tanto interesse, que está despertando e que despertou, porque veio muita gente. Não vejo tantos brasileiros, não vejo tantos brasileiros, realmente, somente vejo os fanáticos do Corinthians que vieram aqui apoiar o Brasil, mas este evento despertou muito interesse. Também veio muita gente de Minas Gerais. Creio que é muito importante que uma instituição multilateral, com o peso da Unesco, não somente dê apoio a este tipo de evento, como deve seguir fazendo quantas vezes ocorra. É muito importante que a gente aprenda não a cultuar, mas sim a dar valor a nossas referências da história, a nossos líderes, àqueles que, muito antes que nós, pensavam já como nós. Muitas vezes fizeram muito mais que nós sem terem os instrumentos que temos hoje.

Eu, um dia desses, participei de uma reunião com um pouco mais de 40 intelectuais da América do Sul, onde discutimos um pouco sobre o tema da integração. É necessário criar a doutrina da integração. O consenso de Washington é uma doutrina. E nós falamos, falamos muito, mas não sistematizamos, do ponto de vista intelectual, o que queremos fazer como integração. É integração apenas econômica, comercial? É integração cultural? É integração física? É integração universitária? Nossas universidades, muitas vezes, nem conversam entre si. Nos interessam as Harvard, nos interessam as da França, Estados Unidos, Inglaterra, mas não nossas próprias universidades. O intercâmbio entre nós é muito pequeno, inclusive entre Brasil e Argentina, que estamos tão próximos, que somos vizinhos.

Então, eu penso que é importante discutir integração na sua totalidade, porque isso contribuiria para mudar um povo, a história de nossa querida América Latina. A integração não pode ser somente um discurso em época de campanha eleitoral ou em reunião de chefes de estado. O que eu dizia aos companheiros intelectuais que estavam ali, naquela reunião, é que a gente, muitas vezes, fica reclamando dizendo que a imprensa não publica o que dizemos, que muitas vezes a imprensa não simpatiza com os governos de esquerda. É só não ser deles que eles não simpatizam. E a gente às vezes fica reclamando e não fazemos o que está ao nosso alcance. Hoje, com a internet, se houvesse uma unidade concreta, sólida, entre os intelectuais latino-americanos, estudantes latino-americanos, sindicalistas latino-americanos, movimentos sociais latino-americanos, entre os homens da América Latina, entre os negros da América Latina, e que cada um de nós fizéssemos funcionar o nosso Facebook, nossos blogs,Twiter, o que seja, faríamos uma revolução da comunicação e, quem sabe, não tenhamos que pedir que alguém tenha que publicar o que nós mesmos deveríamos publicar (APLAUSOS NA PLATEIA).

Eu penso que uma conferência como essa, que reúne 800 pessoas de 44 países não pode terminar e cada um voltar para casa e colocar na sua biografia “participei da Terceira Conferência pelo Equilíbrio do Mundo quando se completava os 160 anos do nascimento de Martí” é muito pouco. É muito pouco. O importante é que se saia daqui como cúmplices, como aliados de alguma coisa nova que queremos construir. É necessário sairmos daqui com o desejo de continuar fazendo essa reunião mesmo não estando reunidos fisicamente. Mesmo não estando reunidos fisicamente, podemos interagir entre nós. Nunca nós tivemos tanta oportunidade de sermos tão independentes como somos agora. E muitas vezes nós ficamos sentados no sofá, reclamando que a televisão não deu a notícia que queríamos ver. Eu nem reclamo, porque, no Brasil, a imprensa gosta muito de mim, meu trabalho, sou um cidadão assim, só falam bem de mim, então não reclamo, a imprensa brasileira só fala bem de mim.. E eu nasci assim, cresci sendo assim e vou morrer assim, ou seja, deixando eles muito nervosos e irritando eles, porque o que eles não gostam na esquerda, não pensem que a imprensa não simpatiza com o Chávez somente porque ele usa uma guayabera vermelha, ou porque fala do sindicalismo do Século 21, não pensem que não simpatizam com Corrêa (INAUDÍVEL), de Evo Morales, de Cristina, de Pepe Mujica, entre outros. A verdade, nua e crua é que a elite, política e econômica dos nossos países não gostam de nós não pelos erros cometidos, mas pelos acertos, pela política de inclusão (APLAUSOS NA PLATEIA). No Brasil, então, gente, eles não suportam que os pobres viajem de avião. E os pobres no Brasil estão viajando de avião. Pobre de carro novo, inclusive, nem pense nisso. Pobre com conta bancária, imagina, é um horror. São essas coisas boas que aconteceram no Brasil que são o motivo do ódio contra Chávez, da ira contra Cristina, é motivo da ira contra Pepe Mujica, contra Evo Morales. Quem poderia imaginar que um índio com cara de índio, com jeito de índio, com comportamento de índio poderia governar a Bolívia e dar certo (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA)? E quando falo de Evo – não falo de mim, porque, imagina, sou um metalúrgico, teria mais probabilidade, teoricamente, que um índio – quando Evo queria brigar comigo, logo no começo do seu governo (você participou), quantas vezes Evo queria brigar comigo, queria estatizar todas as empresas brasileiras que atuavam na Bolívia, e eu dizia “Evo, olha, eu não vou brigar com você”, eu não consigo entender: a direita brasileira queria que eu brigasse com Evo, me chamava de covarde, “Lula é covarde, não briga com Evo”, e eu dizia, “Meu Deus, eu não consigo entender como é que um metalúrgico de São Bernardo do Campo podia brigar com um índio boliviano? Se fosse com o Bush, eu podia entender, se fosse com Angela Merkel, eu podia entender, mas com o Evo era a última coisa que eu faria no mundo: brigar com o Evo (APLAUSOS NA PLATEIA). O mesmo devo confessar a vocês. Eu realmente rezo e peço a Deus que o significado da eleição do Obama nos Estados Unidos seja concretizado, porque o povo americano, votar num jovem negro para ser presidente deste país já é uma revolução no comportamento. E eu peço a Deus que Obama compreenda isso. E ele não tem que fazer muita coisa. É só ter a mesma ousadia que o povo americano teve quando votou nele. Se ele fizer isso, valeu a pena.

Mas, queridos companheiros, agora que vou começar a ler meu discurso (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA). Primeiramente quero dizer que é algo auspicioso que estamos aqui reunidos em Cuba neste momento tão especial da história para estabelecer um diálogo entre pessoas que querem construir um mundo melhor, um diálogo sobre igualdade entre os países e entre as pessoas.

(Aqui encerra a transmissão televisiva)


Clique aqui para assistir o discurso completo de Lula, que foi transmitido pela Telesur.