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Padilha: Entre 10 indicadores de saúde, 8 já pioraram

18/03/2020 10:15

Para Padilha, Bolsonaro não consegue deixar de ser a notícia do dia: "Olha a instabilidade política instalada no país". Foto: Ricardo Stuckert

Por Cláudia Motta, da Rede Brasil Atual 

O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha participou, ao lado do também médico e ex-ministro Arthur Chioro, de debate promovido pela Fundação Perseu Abramo e pelo Instituto Lula, nesta terça-feira (17), para falar dos desafios diante da pandemia do covid19. Os ex-ministros Aloísio Mercadante e Fernando Haddad fizeram a mediação.

“Delinquente criminoso é o que é o atual presidente da República.” Assim o médico infectologista e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha classificou a atuação de Jair Bolsonaro diante dos desafios impostos ao Brasil pela epidemia do coronavírus.

Mercadante reforçou as críticas, ao falar da “irresponsabilidade completa” de Bolsonaro. “Pensa no seu interesse político mesquinho. Falou que as pessoas ficarão autoimunes. Deve pensar: quem morrer no caminho não vai votar em mim.”

Para Padilha, Bolsonaro não consegue deixar de ser a notícia do dia. “Olha a instabilidade política instalada no país. Tem de criminalizar fakenews na área da saúde”, sugeriu.

“Nossa chance de ter vacina para coronavírus futuramente, existe graças à capacidade da OMS (a Organização Mundial da Saúde). O papel do SUS, dos Mais Médicos nesse cenário: tudo que o bolsonarismo sempre atacou são hoje nossas possibilidades de acabar com a tragédia.”

Uma coisa, alerta o médico, está mais clara em todo o mundo: a importância do sistema nacional público de saúde. “É a grande oportunidade de os privatistas entenderem isso. Hospitais privados não vão interromper cirurgias eletivas porque ganham muito, como cirurgias plásticas. É um momento chave.”

Inverno cruel

O médico infectologista, que mantém um canal diário, via WhatsApp, com orientações à população para o combate ao coronavírus (para receber é necessário fazer contato pelo 11 97581-4398), disse que é preciso clareza ao comparar a situação no Brasil com países do hemisfério norte, que entram na primavera na próxima semana. “Inverno faz com que as pessoas fiquem mais próximas, em locais fechados. No hemisfério sul vamos entender agora o que vai acontecer, num outono que está para começar e mais três meses de inverno.”

O período preocupa Padilha. “Teremos o pior inverno da história da saúde pública no país, do ponto de vista do SUS.”

E explica: entre dez indicadores de saúde oito pioram no primeiro ano do governo Bolsonaro. Mortalidade geral, dengue, morte de crianças até 1 ano de idade, aumento do número de internações com pneumonia de crianças até 5 anos, elenca. “Indicador sensível sobre a atenção básica de saúde. Processo de redução do SUS que aponta em primeiro lugar que vamos chegar no inverno com o sistema de saúde pública extremamente fragilizado.”

Cenário grave

E isso num cenário de agravamento de outras situações. “Aumentou muito a população vulnerável, em São Paulo dobrou, em Belo Horizonte triplicou’, lembrou, destacando ainda o aumento da população que não teve acesso a medicamentos de uso contínuo, atacados pelo desmonte da programa Farmácia Popular. “Quem tem doença crônica perdeu tudo isso.”

Padilha ressaltou ainda o aumento da população que tem no SUS a única forma de atendimento. São mais de 47 milhões de usuários de planos de saúde, o restante é SUS exclusivo, informou. “E o coronavírus vem nessa situação. Na semana passada a estimativa era de que a partir de 50 casos confirmados, poderia crescer 10 vezes a cada sete a oito dias. Felizmente medidas estão agindo sobre isso e esse cenário não deve acontecer no Brasil”, afirma o ex-ministro. “Mas por mais que essas medidas reduzam essa progressão, é muito provável que após a segunda quinzena de maio possa voltar a crescer, porque não existe coordenação entre os países atingidos e o Brasil não é uma ilha.”

O que falta?

O médico alerta que precisamos estar preparados para o inverno que se aproxima. “Leitos de UTI serão pressionados por casos de influenza grave nas populações vulneráveis. Outras doenças respiratórias, infartos, aumentam no inverno.”

E critica medidas adotadas pelo atual governo federal, que levaram ao aumento da necessidade de leitos na UTI, como o aumento da velocidade nas estradas, a liberação do uso de armas.

Padilha destaca ainda, como medida urgente, o reforço da capacidade de testagem. “Doria (João Doria, governador de São Paulo) anunciou medida suspendendo exames para corona e mantendo somente para casos graves. Mas a OMS orienta que teste todos os casos que têm sintomas. O governo do estado fala que não tem recurso. Então a liberação do congelamento dos recursos para a saúde tem se ser imediata”, diz, citando a revogação da EC 95, a emenda constitucional do teto dos gastos.

Outras medidas urgentes cobradas pelo infectologista são as equipes de saúde da família atuando nas ruas para atender os moradores nessa situação de risco. E a regulação dos preços dos insumos. “Uma caixa de máscara custava R$ 5 e agora fica entre R$ 120 e R$ 160. Vários países estão proibindo as exportações por isso”, destacou, lembrando que no Brasil faltam medidas nesse sentido. “O governo federal chegou a proibir cruzeiros, mas liberou por pressão econômica. Quando falta coordenação, além das mensagens truncadas, desmobiliza”, critica.

Dentre as propostas, suspender cirurgias eletivas, que podem ser feitas mais para frente, para não sobrecarregar o sistema no atendimento a infectados por coronavírus e proteger os leitos de UTI para as doenças que virão no inverno.

Proteção necessária

Alexandre Padilha falou ainda sobre a importância de proteger quem mais precisa neste momento. “Trabalhadores da área da saúde precisam ter garantidos os equipamentos de proteção individual (EPIs)”, afirmou.

“E como é que o trabalhador que vai ficar em quarentena não será punido com falta, se a orientação é só ir ao medico em caso grave, ou seja não haverá atestado”, questionou, cobrando um seguro-desemprego para proteger trabalhadores informais que terão de deixar sua fonte de renda por causa da epidemia.

“Precisamos de uma forte expansão do SUAS (Sistema Único de Assistência Social)”, ressaltou. “Países onde isso foi feito em outras situações, população sofreu menos e teve recuperação foi mais rápida.”

O médico sugere, ainda, reunir instituições do campo da saúde, da economia, da seguridade social para lidar com o aprofundamento da desigualdade social. E uma agenda do movimento sindical mobilizadora em relação a isso.

“Vários países da Europa construíram protocolos de garantia dos direitos dos trabalhadores, de renda, de proteção aos profissionais da saúde. Temos de discutir horários para fugir dos picos de transporte coletivo, porque serão seis meses ainda pela frente no outono e no inverno.”

Para finalizar, uma recomendação: tomar a vacina antigripal que estará disponível na rede pública de saúde a partir do dia 23 pode ajudar no controle do coronavírus. “É importante para reduzir o risco de ter outra infecção grave por influenza. E fundamental para profissionais de saúde, população carcerária, gestantes, crianças até 6 anos de idade, professores, pessoas com doença crônica ou em tratamento com imunodepressores.”