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Artigo: Como garantir alimentos sem destruir o planeta

12/08/2022 19:41

Reprodução

Estudo da pesquisadora Vanessa Negrini faz parte da série de webinários fruto do Ciclo de Estudos e Pesquisas do Instituto Lula

Uma ampla pesquisa sobre soluções alimentares no combate à fome diante das mudanças climáticas. Esse foi o estudo apresentado na noite desta sexta-feira (12) pela professora Vanessa Negrini, mestre e doutora em políticas de comunicação e cultura da Universidade de Brasília (UnB). Realizada no âmbito do Núcleo de Estudos sobre Direitos Animais e Interseccionalidades (Nedai-UnB), a pesquisa abrangeu uma equipe multidisciplinar que alerta: Garantir a alimentação humana sem destruir o planeta significa garantir o direito básico de estar vivo para reivindicarmos todo o resto. Os comentários sobre o estudo foram feitos pelo doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) Allan Rodrigo de Campos Silva.

O debate inadiável, alerta Vanessa Negrini. Há 811 milhões de famintos no mundo e uma população que vai saltar dos 8 bilhões atuais para 11 bilhões em 2050. A questão que se coloca é como garantir alimentação para tantos humanos sem destruir o planeta. E isso diante da emergência climática de limitar o aquecimento global a no máximo 1,5 grau até 2030. 

“Atualmente, com o aquecimento em 1,1 grau já vemos mudanças climáticas que causam perturbações sérias como secas, calor extremo, inundação, ameaça à segurança alimentar”, destaca ela. “As políticas atuais abrem caminho para um aquecimento global acima de 3 graus, o que é insustentável para a vida humana na Terra”, avisa.

Emissão de gases

Controlar a emissão de metano seria uma das estratégias mais econômicas e rápidas para reduzir a taxa de aquecimento global, diz a professora. E 32% dessas emissões vêm da pecuária. “O Brasil é o quinto maior emissor global de metano”, informa. “A redução de 50% no consumo de carne levaria à queda de 25% na emissão de metano.”

Além disso, mais de 40% dos grãos mundiais vão para os animais da indústria da carne. E 90% da agua doce do mundo é utilizada notadamente na produção pecuária. E ela só fornece 12% das calorias consumidas globalmente.

“Ao mesmo tempo que sobra comida sobra poluição nesse modelo”, critica Vanessa. A pecuária responde por 80% do desmatamento da Amazônia e 50% do desmatamento do cerrado.

“Mantendo-se o foco atual na pecuária, ainda que se derrube todas as árvores da Terra, não haverá carne suficiente para alimentar os 11 bilhões de pessoas em 2050”, afirma, ressaltando que os lucros são privados e os prejuízos socializados. “A indústria agropecuária brasileira recebe em torno de 12,3 bilhões de reais em subsídios governamentais anualmente. Por outro lado, pesquisas apontam que cada um milhão de reais de receita do setor perde 22 milhões de reais em capital natural e danos ambientais.” 

A pesquisadora critica ainda a produção de monocultura em larga escala do agronegócio que não garante a necessidade de segurança alimentar da população. “E cada vez mais vai diminuindo a área de plantio de feijão, por exemplo, a principal fonte de proteína vegetal, acessível a toda população brasileira.”

A Organização Mundial da Saúde já classificou carne processada como grupo 1 para causar câncer. E a carne no grupo 2. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) recomenda a ingestão de carne vermelha por no máximo duas vezes na semana de forma que não ultrapasse 300 gramas por semana, informa a pesquisadora. Ela lembra, ainda, que 70% das enfermidades que surgiram no mundo desde a década de 1940 tiveram origem na exploração animal. “Inclusive a covid-19 é fruto da nossa relação predatória com o meio ambiente, os animais.” 

Alternativas

Promover sistemas alimentares resilientes, sem acabar com o mundo, está entre as saídas. Para isso, afirma a pesquisadora, é preciso alterar a cultura, superando “ilusões totalizantes” como a de que proteínas só vêm da carne. E cita o movimento em vários países no sentido de mudar o consumo de produtos calóricos, por exemplo.

Diante do argumento sobre o impacto do setor agropecuário no PIB, ela informa que 19 milhões de novos empregos poderiam ser criados com a alimentação à base de plantas. “Em uma perspectiva de mercado, a gente tem que as proteínas alternativas vão se desenvolver com potencial econômico muito grande”, prevê a pesquisadora. “Como o Brasil vai ser posicionar nesse mercado? Como protagonista ou no último lugar da fila?”

Vanessa Negrini cita, ainda, a carne cultivada, feita a partir de células animais, sem o abate. “Cerca de 70 startups trabalham com isso no mundo.” Tem 92% menos impacto no aquecimento global, 93% menos poluente, 78% menos desperdício de água, 95% menos utilização de pastagens. No entanto, nem tudo são flores. Os aditivos usados nos métodos atuais de cultivo fazem desse alimento um ultraprocessado, tipo de alimento cujo consumo não é recomendado.

O estudo apresenta, ainda, uma série de sugestões, estratégias para o país, nesse cenário. “Com a emergência climática que se impõe já superamos o tempo das iniciativas individuais. Elas não vão dar conta do desafio. O mundo esta sendo chamado a refletir e dar soluções a essas emergências.”

Assista ao seminário


Contribuição à sociedade

Fruto do Ciclo de Estudos e Pesquisas do Instituto Lula que trata das novas e velhas desigualdades na era digital, 18 webinários apresentam e debatem estudos aprovados em chamadas públicas realizadas pelo IL no final de 2021. O edital PesquisAção ofereceu quatro bolsas de R$ 6 mil cada para a realização de pesquisas. Um segundo edital ofereceu 15 bolsas de R$ 3 mil para a produção de artigos. Os contemplados agora dividem seu conhecimento com o público também por meio dessa série de seminários em nosso canal do Youtube. Além dos webinários, serão publicados três livros com uma coletânea desses artigos e pesquisas.

“Depois de alguns meses de trabalho e discussões internas, esse é um momento oportuno para os autores receberem comentários, críticas e sugestões de convidados externos sobre seus trabalhos”, afirma o professor Luís Vitagliano, coordenador do núcleo de articulação e integração do projeto Velhas e Novas Desigualdades da Era Digital , do Instituto Lula.

“São estudos e pesquisas diretamente relacionados aos propósitos de atuação do Instituto Lula. O objetivo é contribuir para o esclarecimento e a solução de problemas relacionados ao desenvolvimento e soberania nacional, a redução das desigualdades e ao avanço social, político, econômico e ambiental do Brasil na era digital”, destaca Jorge Abrahão de Castro, doutor em Economia, integrante do Grupo de Acompanhamento de Temas Estratégicos (Gate) e curador dos debates.