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Familiares buscam por Fernando Santa Cruz há 45 anos

31/07/2019 10:46

Foto: Comissão da Verdade / Divulgação

Da Fundação Perseu Abramo

No dia 14 de março de 1974, Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira foi até a carceragem do Doi-Codi em São Paulo buscando saber o paradeiro do filho. Segundo seu relato, ao dizer o nome "Fernando Augusto de Santa Cruz", o carcereiro respondeu completando o último nome, "Oliveira", e confirmando que Fernando estava ali, mas que só poderia receber visitas no domingo, dia 17. Ela então deixou uma sacola com objetos pessoais e partiu com a certeza de que o filho estava preso e vivo.

No domingo 17 de março de 1974, os carcereiros do Doi-Codi/SP mudaram a versão e negaram que Fernando tivesse passado pelo local. A sacola com objetos pessoais foi devolvida. Elzita morreu há um mês, aos 105 anos, ainda buscando saber o paradeiro do filho.

O caso de Fernando não é único. A lista de brasileiros assassinados e desaparecidos durante a ditadura tem mais de 470 nomes. Assim como dona Elzita, centenas de mães e familiares seguem sem o direito sagrado de enterrar seus mortos.

Nesta segunda-feira, dia 29 de julho, o presidente Jair Bolsonaro disse que sabia onde estaria Fernando Santa Cruz, que é pai do atual presidente da OAB. À noite, Bolsonaro voltou ao tema e acusou, sem apresentar provas, militantes de esquerda de serem responsáveis pela morte de Fernando. A acusação contraria documentos oficiais das Forças Armadas, a lógica e o bom senso. As declarações de Bolsonaro provocaram o repúdio de diversas entidades.

Quem foi Fernando Santa Cruz

Nascido em 20 de fevereiro de 1948 em Recife, Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira tinha acabado de completar 25 anos quando desapareceu. Participou do movimento secundarista em Pernambuco e, ainda menor de idade, chegou a ser preso durante uma manifestação contra os acordos MEC-Usaid. Em 1969 mudou-se para o Rio de Janeiro e trabalhava na Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio, ligada ao Ministério do Interior do governo militar.

Em 1972, aos 23 anos, ingressou no curso de Direito da Universidade Federal Fluminense, mas no ano seguinte conseguiu um emprego de funcionário público em São Paulo e abandonou os estudos para morar na capital paulista. Ele era funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica em São Paulo, onde morava com a mulher e o filho Felipe, de dois anos.

No dia 23 de fevereiro, um sábado de carnaval, Fernando estava no Rio de Janeiro com a família visitando parentes. Por volta das 15h30, ele saiu da casa do irmão, Marcelo, no Catete, para se encontrar com Eduardo Collier Filho, que morava em Copacabana. Na saída, avisou: se não voltasse até as 18 horas, teria sido preso.

Até 1968, quando militava em Pernambuco, Fernando era integrante da Ação Popular, criada por estudantes católicos. A partir de 1972, com o aumento na repressão, ele e o amigo Eduardo alinharam-se com a ala que não concordou com a incorporação de sua organização pelo PCdoB e se manteve com o nome APML (Ação Popular Marxista-Leninista).

Fernando e Eduardo foram presos naquele dia, em Copacabana, por agentes do Doi-Codi/RJ. Em seguida, o apartamento de Eduardo foi invadido pelos órgãos de segurança. Segundo o Dossiê da Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985), há indícios de que eles realmente foram transferidos para o Doi-Codi em São Paulo.

A busca das famílias não parou por ali. Dona Elzita, mãe de Fernando, chegou a escrever para o chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, general Golbery do Couto e Silva. Um habeas corpus foi impetrado no Supremo Tribunal Militar e o MDB publicou uma nota oficial indagando o paradeiro de desaparecidos políticos, entre eles estavam os nomes de Fernando e Eduardo.

Dona Elzita chegou a ser recebida, junto com outros familiares, por Golbery, que prometeu uma resposta em 25 dias. Mas apenas seis meses mais tarde que o ministro da Justiça, Armando Falcão, deu uma resposta, apresentando uma versão de que todos os 22 desaparecidos políticos eram foragidos e nenhum havia sido preso pelo governo.

A mentira começou a ser desvendada apenas nos anos 1990. Em 1991, a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos encontrou no arquivo do Dops do Paraná uma ficha com o nome de Eduardo em uma gaveta identificada com a palavra "falecidos". Em 1992, uma ficha de Fernando foi encontrada no Dops em São Paulo e confirmava "preso no RJ em 23/03/74".

Em 2004, em entrevista à revista IstoÉ, o sargento Marival Chaves do Canto declarou que houve uma "mega-operação em inúmeros pontos do país para liquidar, a partir de 1973, os militantes das várias tendências da Ação Popular (AP)". Ainda segundo ele, entre os mortos estariam Fernando e Eduardo.

Os dois foram homenageados com nomes de ruas em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas. O DCE da Universidade Federal Fluminense adotou o nome de Fernando e fez um documentário sobre ele intitulado "25 anos sem Fernando Santa Cruz". O Teatro Municipal de Olinda (PE) e o diretório acadêmico da Faculdade de Direito da PUC, no Recife (PE), levam seu nome.

Fontes:
Dossiê da ditadura: Mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985)
Habeas Corpus - que se apresente o corpo. A busca de desaparecidos políticos no Brasil