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Lula lamenta ‘avacalhação’ do país

26/04/2019 17:32

Lula afirma que pode ficar preso 100 anos, mas não troca sua dignidade por liberdade. Reprodução El País

Da Rede Brasil Atual 

 Na primeira entrevista concedida desde que foi levado a Curitiba, em 7 de abril de 2018, Lula foi contundente. “Quem tem 73 anos de idade, quem construiu a vida que eu construí nesse país, quem fez o governo que eu fiz, quem recuperou o orgulho e a autoestima do povo brasileiro como eu, não vou me entregar.”

Em vídeo de cerca de oito minutos, divulgados pelo El País em sua página do Youtube, Luiz Inácio Lula da Silva aparece mais magro, mas disposto e profundamente irritado com a situação em que se encontra, assim como a que o país está mergulhado.

“Você pensa que eu não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com minha mulher, com meus filhos, meus netos, meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão porque quero sair daqui com a cabeça erguida como entrei, inocente. E só posso fazer isso se tiver coragem e lutar por isso”, afirmou aos jornalistas Monica Bergamo e Florestan Fernandes Junior.

O ex-presidente lembrou o dia de sua prisão, e a “briga” que se instalou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sobre se ele deveria ou não se apresentar à Polícia Federal.

“Quando ficou claro que o objetivo era efetivamente (a prisão), muita gente achava que eu deveria fugir, ir pra uma embaixada”, conta. “Tomei a decisão de que meu lugar era aqui. Tenho tanta obsessão de desmascarar o Moro, o Dallagnol e sua turma que eu ficarei preso 100 anos, mas não trocarei minha dignidade pela liberdade.”

O ex-presidente afirma querer provar a farsa montada “aqui dentro, montada no departamento de justiça dos Estados Unidos, com depoimento de procuradores e filme gravado”. E comenta, com ironia, a criação da “fundação criança esperança do Dallagnol”, com “ele pegando 2 milhões e meio da Petrobras, pra criar uma fundação pra ele, fora os R$ 6,8 bi da Odebrecht, fora não sei quantas outras coisas”.

Sem ódio, sem mágoa

Lula afirma não ter ódio, nem guardar mágoa de ninguém. “Até porque, na minha idade, quanto a gente fica com ódio a gente morre antes e não quero morrer”, sorri. “Como quero viver até os 120, porque acho que sou um ser humano que nasceu pra viver até os 120, vou trabalhar muito para provar minha inocência e a farsa que foi montada. Por isso vim pra cá com muita tranquilidade.”

Tranquilidade essa que, acredita o petista, seus adversários não têm. “Eu durmo todo dia com minha consciência tranquila, e tenho certeza que o Dallagnol não dorme e o Moro não dorme. E aqueles juízes do TRF 4 que nem leram a sentença? Fizeram um acordo lá. Era melhor que um só tivesse lido e ter falado: todo mundo aqui vota igual.”

Pelo amor de Deus

Eu penso que haverá um dia que as pessoas que irão me julgar estarão preocupadas com os autos do processo, com as provas contidas no processo e não com a manchete do JN, não com a capa das revistas, com as mentiras do fakenews”, afirmou Lula em outro momento de muita emoção.

“As pessoas se comportarão como juízes supremos de uma corte que já tomou decisão muito importante”, disse, lembrando os votos a favor das pesquisas com célula-tronco contra boa parte da igreja católica; da questão da Raposa Serra do Sol contra os “poderosos do arroz” no estado de Roraima; pela união civil contra todo preconceito evangélico; as cotas para que os negros pudessem ingressas nas universidades. “Ela (a Justiça) já demonstrou que teve coragem e se comportou. No meu caso, só quero que votem com relação aos autos do processo. Não peço favor a ninguém, só quero que as pessoas, pelo amor de Des, julguem em função das provas.”

O ex-presidente afirma que tanto Moro como Dallagnol têm certeza da sua inocência. “Se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema unção vão ter de confessar. Ele (Moro) tem certeza que sou inocente, esse Dallagnol tem certeza que é mentiroso e mentiu a meu respeito”, disse.

Mais preocupado com o país

Em dois momentos Lula manifesta sua preocupação maior: o povo brasileiro. “Estou aqui pra procurar Justiça, provar minha inocência, mas estou muito mais preocupado com o povo brasileiro. Porque eu posso brigar, mas o povo nem sempre pode.”

Florestan Fernandes pergunta sobre os filhos e as dificuldades financeiras da família Lula da Silva. “Estão todos mal. Meus bens estão todos sequestrados”, disse, para lembrar o “absurdo” da multa de R$ 32 milhões “para pagar não sei o quê”. “O STJ diminuiu para R$ 2 milhões. Qual a lógica?”

E falou sobre a condenação, em que Bancoop deve devolver o dinheiro do tríplex nunca comprado, à Dona Marisa Letícia. “Espero que a partir desse processo que nós ganhamos, que a Dona Marisa ganhou em São Paulo, espero que as pessoas desbloqueiem os bens pelo menos na parte da Dona Marisa, para que os filhos possam sobreviver dignamente. Fico preocupado com meus filhos, eles vêm aqui me ver sempre. Mas fico mais preocupado com o país”, disse, novamente muito emocionado.

“Não consigo imaginar os sonhos que eu tive pra esse país. O sonho que eu tinha quando a gente descobriu o pré-sal pra fazer esse país virar gigante. Eu tenho orgulho e eu sonhei grande porque passei a ser um presidente muito respeitado. O Brasil era referência.”  

Lula falou então de sonhos realizados. Da criação do bloco na América do Sul “pra gente ter força nas negociações com a União Europeia, com os EUA, com a China”. E de como o Brasil foi muito importante no G20: “eu fui único presidente a ser chamado pra todas as reunião no G8”.

Com tristeza e voz embargada, Lula constata: “Tudo isso desmanchou. Agora eu vejo o prefeito de Nova Iorque não quer fazer um jantar com o presidente do Brasil, o dono do restaurante se recusa. A que ponto chegamos, que avacalhação.”

Podia morrer e meu neto viver

“A morte do meu neto é uma coisa que efetivamente não, não...” Lula interrompe a fala e chora após a pergunta do jornalista Florestan Fernandes, sobre seu neto Arthur.

Em vídeo de três minutos e meio, da TV Folha, Lula aparece entrando na sala onde foi concedida a entrevista. A postura firme e altiva se desmancha por alguns instantes, para falar do neto, morto no dia 1º de março.

“Às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Já vivi 73 anos, poderia morrer e deixar meu neto viver. Mas não são apenas esses momentos que deixam a gente triste", relata, recobrando a força na fala e no olhar.

“Sou um homem que tento ser alegre, tento trabalhar muito a questão do ódio. Trabalho muito pra vencer a questão do ódio, da mágoa profunda. Tenho muitos momentos de tristeza aqui, mas o que me mantém vivo, e é isso que eles têm de saber: que tenho compromisso com este país”, brada, batendo na mesa.