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Para combater o coronavírus, precisamos do SUS estruturado

16/03/2020 11:51

Médico Ricardo Kuchenbecker. Foto: Giulia Cassol/Sul21

O sistema de saúde é a principal arma do Brasil para enfrentar o vírus, mas os problemas de subfinanciamento comprometer o trabalho, aponta Ricardo Kuchenbecker

Por Sul21

Nos próximos dias, a população brasileira passará da condição de espectadora do avanço do novo coronavírus pelo mundo para a de diretamente envolvida na luta para conter as transmissões e tratar as pessoas que tiverem o sistema respiratório atingido pelo vírus. O sistema público de saúde, capilarizado por todo o pais, é a principal arma de que o Brasil dispõe para enfrentar o coronavírus, mas os problemas de subfinanciamento que atingem esse sistema podem diminuir a efetividade da resposta ao avanço da epidemia.

“É preciso ter um sistema público de saúde estruturado em mais de cinco mil municípios e interligado se quisermos ter uma resposta efetiva para a epidemia”, diz o médico Ricardo Kuchenbecker, professor de Epidemiologia da Faculdade de Medicina, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Gerente de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Em entrevista ao Sul21, Ricardo Kuchenbecker fala sobre a natureza e a dimensão e a natureza dos problemas que serão enfrentados com o avanço do coronavírus no Brasil. Com a experiência de quem atuou em duas duas grandes emergências em saúde pública vivenciadas pelo Brasil nas últimas décadas, as epidemias de HIN1 (2009-2010) e Zica vírus (2015-2016), Kuchenbecker destaca a importância que o conhecimento e o acesso à informação terão no enfrentamento da crise sanitária que se avizinha. E alerta para a complexidade das implicações resultantes de decisões que envolvem restrição de convívio social, que terão que ser tomadas nos próximos dias.

Nós temos hoje um estado de bem-estar social que dá conta desse ‘break’ que precisa ser dado? Temos uma estrutura de apoio que segure as crianças em casa sem que isso implique uma parada na produção? Temos relações de produção que nos ajudam, de forma solidária, a lidar com todo esse processo? Não temos. Isso maximiza o impacto de uma situação como essa que estamos vivendo”.

Sul21: O senhor já tem experiência em enfrentamento de epidemias e trabalhou em duas das grandes emergências em saúde pública que ocorreram no Brasil nos últimos anos, gripe H1N1 (2009-2010) e Zica Vírus (2015-2016). À luz dessa experiência, como avalia a chegada do novo coronavírus no Brasil, que praticamente coincidiu com a declaração de pandemia feita pela Organização Mundial da Saúde?

Ricardo Kuchenbecker: Uma pandemia já era algo esperado. Na verdade, o que a Organização Mundial da Saúde fez foi reconhecer que há, do ponto de vista geográfico, uma expansão em termos de casos e países. Desde dezembro e janeiro, o mundo já antevia que a decretação de uma pandemia era só uma questão de tempo.

Há uma série de medidas preparatórias para o enfrentamento dessa situação que foram sendo tomadas neste período: produção de informação em tempo real pelos países; compartilhamento dessas informações entre os países para que possamos ter uma leitura do cenário global, ao mesmo tempo em que é importante entender o comportamento do vírus nos países e nos continentes; criação de estratégias de disseminação da informação como, por exemplo, a adoção pelas revistas científicas de um processo ágil de artigos que chegam contando essa história toda. Estou simplificando aqui um movimento muito mais amplo, onde os países, liderados por seus sistemas de vigilância epimediológica, e também a Organização Mundial da Saúde foram se preparando para aquilo que parecia só uma questão de tempo, saindo do contexto asiático e ganhando uma dimensão global.

O que há de semelhante em relação a outras epidemias recentes, notadamente o H1N1 e outras variantes de vírus que desenvolvem síndromes respiratórias, é a expectativa de um número grande de casos. É importante ter claro, porém, que ainda estamos olhando para os casos mais graves. Ainda não tivemos acesso à informação completa da China, de Hong Kong e mesmo da Itália sobre aqueles casos mais leves. Com isso, a gente acaba tendo uma visão um pouco distorcida. Chama muito a atenção de qualquer pessoa olhar para um lugar onde as pessoas estão completamente paramentadas em um local de circulação restrita, manejando pacientes em situação grave. Mas é importante dizer que essas pessoas em situação grave representam menos de 15% do total de atingidos.

Milhares de pessoas vão a óbito no Brasil todos os anos por causa de gripe. Daí a justificativa para a vacina da gripe. Mas uma situação como essa de epidemia desperta uma grande ansiedade na população por conta da maior visibilidade. O coronavírus é um dos tipos de vírus respiratórios e ele causa um numero “x” de mortes/ano. A semelhança que mencionei tem a ver com isso. Para a gripe, nós temos uma estratégia de imunização e isso diminui muito o impacto da doença, seja pelo numero de casos de pessoas afetadas ou de pessoas mortas pela enfermidade. Para esse novo coronavírus nós não temos isso. Mas é importante que as pessoas saibam que, de cada 100 pessoas infectadas, cerca de 80 delas ficam bem e se recuperam completamente. Algo entre 10 e 15% (20% no máximo) fazem formas mais graves a ponto de precisar buscar um serviço de saúde e um atendimento de nível mais avançado com suporte de UTI.

Estamos falando do vértice de uma pirâmide. Ainda estamos vendo o vértice de diferentes pirâmides, da China, de Hong Kong, da Itália. Ainda falta entender um pouco melhor a base dessas pirâmides. O vértice não sem mantém no ar. Ele tem uma base, que é constituída pelos casos menos graves, que são manejados em casa e não necessariamente precisam buscar atendimento no serviço de saúde. À medida que passarem as semanas e tivermos mais informações sobre a base da pirâmide, esses números provavelmente vão diminuir, não em número de casos novos, mas no que diz respeito à taxa de letalidade, de mortalidade. Talvez até a taxa de infecção caia. À medida que temos a base da pirâmide, diminui a relação entre o numerador “mortes” e o denominador “casos afetados”.

Ainda estamos olhando para um cenário muito adverso. A expectativa é que tenhamos um grande número de casos no Brasil e, proporcionalmente, um grande número de óbitos . Mas isso, é bom repetir, já acontece anualmente em função das doenças respiratórias, em especial a gripe, sem que as pessoas se preocupem muito com o que está acontecendo.

Confira a íntegra da entrevista do Sul21