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Professora explica: bolsonarismo estrutura poder na internet

28/03/2022 09:30

A tecnologia digital não deve ser vista apenas como um conjunto de ferramentas de comunicação, mas sim como um ecossistema político-econômico e cultural que atravessa todas as esferas da vida no mundo contemporâneo. Essa realidade, que já vinha se configurando desde o início do século XXI, foi acelerada pela pandemia da covid-19, criando, sobretudo em nações mais urbanizadas, como o Brasil, uma verdadeira digitalização da vida, ao impulsionar profundas transformações, que vão das relações pessoais até a forma de produção e circulação de mercadorias e serviços. Obviamente, estas transformações vão também impactar o modo de se fazer política.

Na aula de abertura do curso Desafios Políticos na Era Digital, Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e professora no Departamento de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Bath (Reino Unido), desnuda esse cenário e explica que a extrema-direita compreende essa realidade e por isso tem o domínio da infraestrutura da política digital. Para ela, “a esquerda não conseguiu dar esse passo na conquista da esfera digital [...] a esquerda muitas vezes vê a internet como um meio para usar de forma pontual, contratando um especialista em marketing digital durante a eleição e abandonando esse projeto depois da eleição”, e aprofunda esse argumento dizendo que “isso é um erro fundamental de não criação de um ecossistema” de não percepção “de que esse não é um projeto [apenas] para a eleição de agora, mas para dez anos e para sempre, porque a política é digital no século XXI, o problema é fazer isso”.

Para entender esse ecossistema político-digital, Rosana faz a seguinte pergunta: qual o impacto da economia digital no processo político? E explica que a pandemia fez crescer de maneira exponencial o acesso das pessoas às plataformas e aos negócios digitais. “Então, o sujeito tá lá ferrado, quebrou sua banquinha, ele comprou um celular e vai tentar vender lá [nas plataformas virtuais]”, exemplifica. Assim, esse trabalhador começa a precisar de capital simbólico e social, e likes e seguidores passam a ser essenciais para ele poder fazer sua renda, vendendo seus produtos ou serviços na internet. É nesse momento que os principais núcleos de recrutamento para a extrema direita entram em ação, pois quem está nas mídias digitais oferecendo ferramentas para melhorar as vendas no mundo virtual são os influenciadores do marketing digital e os coach de investimento (os chamados investidores), que “tem o projeto político de ensinar esse pequeno comerciante de que ele vai se aposentar com bitcoins e que ele não precisa mais de carteira assinada”, afirma a antropóloga.

Além destes, a professora diz que há um outro polo importante que são os dos novos pastores influenciadores digitais, “homens muito bonitos, que moram nos EUA; também tem as jovens mulheres pastoras, com harmonizações faciais muito parecidas, bem-vestidas e bem-sucedidas”. Todos esses grupos são profundamente bolsonaristas e vão acolher e ensinar as pessoas que querem e precisam usar a rede para terem alguma renda. São esses vendedores de sonhos que vão incutir em milhões de seguidores as ideias do conservadorismo ultraliberal de que eles vão conseguir ganhar um milhão de reais e que aqueles que não conseguem é porque são preguiçosos. Rosana explica que essas são formas muito mais sutis, muito mais poderosas e muito mais sustentáveis de recrutamento de membros para o bolsonarismo.

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