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Relato: "Eu estive com Mandela no Brasil"

17/08/2022 15:18

Foto: Guilherme Bastos/Ag. O Globo

Este mês marca 31 anos da visita de Nelson Mandela, (então presidente sul-africano) ao Brasil. O jornalista José de Segadas esteve com o líder contra o Apartheid durante os dias em que ele passou no Rio de Janeiro e escreve um relato pessoal para o site do Instituto Lula.

"Homem que virou símbolo da luta contra a divisão racial no mundo inteiro, Nelson Mandela deixou marcas em vários lugares do Rio, cidade que foi palco de uma visita histórica sua em 1991. Em uma quinta-feira (5), cariocas que estavam na rua que leva o nome do líder sul-africano na placa, em Botafogo, na Zona Sul, ficaram surpresos com a notícia de sua morte. Três anos antes de virar presidente da África do Sul, Mandela conheceu personalidades peculiares da cidade, como o então governador Leonel Brizola e o sambista Martinho da Vila, e até foi perseguido pelo infame Beijoqueiro, o português José Alves de Moura, que tentava beijar celebridades internacionais que visitavam o Rio. 

Além da história de vida do líder sul-africano, as palavras que Mandela fez no Rio podem ter motivado a simpatia que o carioca tem pelo líder até hoje. "Quando vejo seus rostos tenho a sensação de estar em casa, porque a mistura da população é como a nossa. E nós damos as boas-vindas a esse fato, porque a miscigenação enriquece o País", disse Madiba, durante a visita em 1991. "O Rio de Janeiro, que teve a honra de receber Nelson Mandela, manifesta o seu pesar pela perda de um dos maiores líderes do Século XX". 

Eu estava com Leonel Brizola no Palácio Guanabara quando Mandela foi recebido por Brizola e ver de perto dois líderes, um mundial e outro nacional, ambos extremamente populares juntos, trocando palavras e olhares de admiração recíprocos foi emocionante. Mandela estava particularmente interessado em conhecer o projeto dos CIEPs e Brizola pode falar e mostrar o que seu governo tentava fazer pela educação das crianças pobres. 

Mandela desembarcou no Rio de Janeiro, foi recebido pelo governador Leonel Brizola, do PDT, e disse que o Brasil “está mais adiantado na conquista de uma sociedade multirracial”. Ele elogiou a democracia racial brasileira. No último dia ouviu de Sidney Sanches, juiz e presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, que “os negros são preteridos e os brancos preferidos”, quando da admissão nos empregos. Antes da partida, Nelson Mandela disse, ainda, que viu “amargura nos olhos dos negros”. Na África do Sul os nativos africanos e imigrantes de origem não europeia, negros, sempre estiveram cultural e geograficamente confinados. Foram excluídos da economia e da política. Brizola, primeiro governador de estado que encontrou, disse que existe racismo no Brasil e ofereceu-lhe um show, reunindo os principais negros artistas do estado e do país, na Praça da Apoteose. 

Nessa mesma ocasião eu estava ocupando a função de Gerente Geral da Passarela do samba e montamos um esquema de segurança para a ida de Mandela digno de qualquer dirigente de qualquer país. Além das polícias oficiais, montamos o que na ocasião chamamos de ‘segurança militante’, com integrantes e ex integrantes da Juventude Socialista do PDT, com alto nível de ideologização, e estes companheiros ocuparam posições estratégicas em vários pontos da Passarela do Samba para detectarem qualquer ação política contra Mandela e Brizola. 

Felizmente tudo transcorreu bem e a ida de Mandela na Passarela do samba foi mais um momento alto da vinda do líder sul africano ao Rio de Janeiro. Aliás, um ponto curioso desta visita e com o qual nos preocupávamos bastante era o assédio constante de uma figura folclórica e peculiar que vivia no Rio de Janeiro na época e assediou Mandela em todos os momentos da visita visando tornar-se mais ‘célebre’ do que já era. Essa figura era José Alves de Moura, o conhecido ‘Beijoqueiro’, um cidadão português que se celebrizou por dar beijos nas faces de todas as figuras famosas das quais conseguia se aproximar. ‘beijoqueiro’ não era uma figura perigosa, apesar do visível desequilíbrio emocional que demonstrava, porém, a forma com que tentava se aproximar das pessoas, inclusive de Mandela, causava um constrangimento e colocava em risco todo o esquema de segurança. 

Estar tão próximo a Nelson Mandela, tanto no Palácio Guanabara quanto na Passarela do Samba, foi um momento inesquecível e que marcou de forma permanente minha memória pessoal e política". 

Saiba mais sobre a histórica visita de Nelson Mandela ao Brasil no Memorial da Democracia, o museu virtual do Instituto Lula.